No imaginário comum, rotina ainda é confundida com rigidez, controle excessivo ou perda de espontaneidade. No entanto, quando falamos de desenvolvimento infantil, especialmente no contexto do autismo, ciência e prática clínica mostram o oposto. Em nossa família, a rotina é essencial!
A neurociência é clara: o cérebro infantil precisa de previsibilidade para se desenvolver com liberdade.
Sem rotina, o cérebro entra em modo de alerta.
Com rotina, o cérebro entra em modo de aprendizagem.
Quando o nosso filho Filipe não tem previsibilidade, o cérebro dele gasta energia excessiva tentando antecipar o próximo passo:
“O que vem agora?”
“O que esperam de mim?”
“Estou seguro?”
Esse estado ativa sistemas de estresse, desorganiza funções executivas e fragiliza o emocional. Não é birra. Não é falta de interesse. É sobrecarga neuroemocional, que é a interconexão entre o sistema nervoso e as emoções.
A ausência de rotina costuma gerar um esforço constante de adaptação. A criança precisa lidar, ao mesmo tempo, com estímulos sensoriais, demandas sociais e incertezas sobre o ambiente.
Nesse contexto, é comum observar:
1) aumento da ansiedade e da irritabilidade;
2) dificuldades de atenção e concentração;
3) maior cansaço emocional ao longo do dia;
4) respostas intensas a frustrações simples.
Essas manifestações não indicam falta de vontade ou comportamento opositor. Elas revelam um cérebro sobrecarregado, tentando se proteger.

Rotina como base para o desenvolvimento
Quando o dia a dia tem estrutura, o cérebro encontra referências estáveis. Horários, sequências e rituais ajudam a criança a compreender o tempo, antecipar acontecimentos e se sentir segura. É essa base que permite ao nosso filho Filipe criar e interagir com mais confiança.
Um olhar emocional: rotina como sustentação psíquica
Do ponto de vista emocional, a rotina representa algo essencial: o adulto assume a responsabilidade de organizar o ambiente. A criança, então, pode ocupar o lugar que lhe cabe: o de crescer, experimentar e aprender.
Quando essa organização não existe, muitas crianças tentam compensar a instabilidade ao redor, o que gera insegurança e desgaste emocional. A previsibilidade diária atua como um apoio invisível, mas constante, que fortalece o senso de pertencimento e confiança.
Vivemos em um cenário marcado por estímulos intensos, telas, velocidade e recompensas imediatas. Para crianças autistas, esse excesso pode ser especialmente desorganizador.
A rotina ajuda a:
1) estabelecer limites saudáveis para o uso de tecnologia;
2) equilibrar momentos de estímulo e descanso;
3) favorecer a regulação emocional;
4) desenvolver consciência sobre tempo e escolhas.
Mais do que controlar, a rotina ensina a usar recursos com equilíbrio.
Cuidar da rotina é, acima de tudo, um ato de responsabilidade emocional. É oferecer previsibilidade hoje para fortalecer o desenvolvimento de amanhã.