20/06 | 2 anos de Coletivamente

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Por que todo mundo foge?

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É engraçado como as pessoas amam o autismo quando ele vem em um pacote fofo e do tamanho de uma criança. Mas no minuto em que essa criança faz 18 anos? De repente, todo mundo está aterrorizado. Eu acho bizarro. Há um fenômeno silencioso rolando por aí: o medo genuíno de sentar e conversar com um adulto autista.

Você tem esses profissionais que ganharam rios de dinheiro, construíram carreiras inteiras e a fama de “especialistas” em autismo. Mas a mágica deles só parece funcionar com crianças. Quando a infância acaba e aquelas estratégias bonitinhas de comportamento param de dar resultado, o que eles fazem? Eles recuam. Em vez de tentarem o diálogo, rola um receio absurdo, um distanciamento e, sejamos honestos, muito preconceito. Legal da parte deles.

Na vida adulta, o que importa não é o que você diz. É a performance. Para o adulto autista, tentar se comunicar com o resto do mundo é uma batalha exaustiva. Tem uma frase da minha mãe que resume bem isso: “Ser autista muitas vezes é acertar no conteúdo, mas errar feio na forma.”

Se você não entrega o seu texto do jeito que os neurotípicos querem, o seu roteiro é descartado. E se até os “especialistas” invalidam o que você diz porque você teve uma crise no passado ou porque o seu comportamento foi meio esquisito, o que esperar da sociedade em geral? Então o que a gente faz? O masking. A gente atua. A gente encena 24 horas por dia, num policiamento constante que drena cada gota da nossa energia e detona a nossa saúde mental, indo muito além do que qualquer pessoa consideraria saudável. Mas, ei, pelo menos a gente não deixa os outros desconfortáveis, né?

A grande diferença entre uma criança autista e um adulto autista se resume a uma palavra: bagagem. Crescer com um cérebro neurodivergente num mundo projetado para quem não é, invariavelmente, é uma receita infalível para colecionar traumas.

Muitos de nós carregam:

Sentimentos não resolvidos: Basicamente, frustrações e problemas do passado que continuam ecoando no presente.

A falta de apoio: Uma vida inteira sem acesso a diagnósticos, sem a terapia certa ou sem qualquer adaptação no mercado de trabalho.

Exclusão social sistêmica: Dificuldades absurdas que, por muito tempo, a gente não podia nem nomear sem que achassem que éramos apenas pessoas “difíceis”.

Hoje, os pais de crianças autistas acham que, se fizerem intervenção precoce o suficiente, os filhos deles nunca terão as dores que os adultos autistas de hoje têm. E, claro, terapia na infância ajuda. Mas ignorar o adulto de hoje é uma falha de empatia grotesca. A sociedade tem uma dívida histórica com quem sobreviveu a tudo isso no escuro. A forma como vocês tratam o adulto autista hoje é o reflexo exato do mundo que está esperando por essas crianças amanhã.

A parte irritante: ter esperança

Se por um lado a comunidade médica e as famílias precisam desesperadamente criar empatia, por outro lado, o adulto autista tem um problema interno para resolver: manter a esperança. O que é irritante, porque deixar a esperança morrer e afundar num poço de vitimismo é muito mais fácil. Dá uma sensação paralisante de impotência, mas é confortável. Só que a gente precisa quebrar esse ciclo.

É fundamental colocar na cabeça que:

O passado não é uma sentença de morte: O que já aconteceu não dita, obrigatoriamente, as possibilidades do que vai rolar amanhã.

Dá para mudar: Sempre há tempo para buscar tratamento (sério, façam terapia), mudar de rota e dar um novo significado para aquelas dores velhas.

Humildade ajuda: Reconhecer que a gente (não só autista, todo mundo) é meio quebrado, mas que sempre dá para melhorar, é essencial.

    A busca por melhorar e se encaixar em um senso de coletividade não é uma obrigação só de quem está no espectro, mas do mundo todo. Seria ótimo se, juntos, a gente pudesse simplesmente parar de ter tanto pavor do adulto autista e começasse a ouvir o que ele tem a dizer.

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