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Apesar de antiga, a musicoterapia ainda não é amplamente conhecida. O tratamento é baseado no uso profissional da música e de seus elementos como intervenção em ambientes médicos, educacionais e cotidianos, com indivíduos e grupos que buscam otimizar a qualidade de vida e melhorar a saúde física, social, comunicativa e emocional. Entre pacientes neurológicos, com questões de mobilidade e sindrômicos, como autistas, a abordagem terapêutica traz diversos benefícios.

“ Vejo muita diferença na Isa. Agora, por exemplo, consigo escovar os dentes dela. Também fica mais fácil de chamar a atenção dela quando está chorando. São coisas que parecem simples, mas que eu tinha bastante dificuldade antes. Tudo com música fica mais simples ”, diz Larissa Gomes Pinheiro, mãe da Isadora, de 2 anos.

A menina está em processo de diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA), faltando apenas o laudo do neurologista. Inicialmente, a mãe pensou que ela tinha problemas de audição, já que, ao chamar a filha pelo nome, não obtinha resposta. A menina também tem dificuldade para socializar com outras crianças de sua idade.

“ Eu percebia o jeito dela de brincar. Ela tem uma seletividade alimentar grande e pouca interatividade social, também. Pelo atraso na fala que ela tinha, a creche indicou um acompanhamento e conseguimos o tratamento com a fonoaudióloga e a nutricionista na Unidade Básica de Saúde”, explica Larissa.

Isadora sempre gostou de música, que já a ajudava em diferentes situações — como comer, tomar banho e dormir —, além de acalmá-la em momentos de estresse. Há três meses, a pequena começou a ter sessões de musicoterapia na Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim Miriam, em São Paulo, e a mãe já nota diferenças significativas no comportamento da filha.

“ A Isa gosta de todas as músicas possíveis e canta tudo. Ela está conseguindo falar e interagir melhor, e eu acho maravilhoso. De início, não conhecia a musicoterapia, mas a fono percebeu que este seria um jeito fácil de acessar a minha filha e começamos o tratamento ”, conta Larissa.

A responsável pelo tratamento de Isadora é a fonoaudióloga e musicoterapeuta Vanessa Lira Vieira, que trabalha na unidade de saúde desde abril de 2022. Segundo a especialista, se destinado a pessoas dentro do espectro autista, é preciso considerar o nível de autismo do paciente para entender as possibilidades.

“ Também precisamos pensar se a criança ou o adolescente é oralizado ou não, para entendermos as possibilidades. No caso de autistas não oralizados, a musicoterapia entraria como uma abertura de canal de comunicação, para que a interação social e a linguagem sejam estimuladas. Por exemplo, com um autista não oralizado que começou a fazer vocalizações, eu posso começar a fazer uma improvisação musical”, detalha a fonoaudióloga.

Vieira acrescenta que a recriação é outra ferramenta utilizada na musicoterapia, já que é possível, a partir de uma música existente, incluir o nome da criança ou de um familiar e um objeto que ela goste na letra.

— Com uma criança que já tem linguagem, entendemos que é mais fácil já que temos um caminho previamente iniciado. Então, conseguimos abordar emoções em canções que falam sobre esses aspectos.

A terapeuta ainda ressalta que, para ter os atendimentos de musicoterapia, é preciso realizar uma avaliação prévia com as crianças, já que, para algumas com disfunções sensoriais, música pode ser um sofrimento.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente uma em 100 crianças têm autismo. As características podem ser detectadas na infância e, geralmente, incluem algum grau de dificuldade na interação social e comunicação. Além disso, autistas podem apresentar padrões atípicos de atividades e comportamentos, como dificuldade na transição de uma atividade para outra, foco em detalhes e reações incomuns a sensações.

Segundo a musicoterapeuta, o diagnóstico é muito importante, mas a lógica dele ser tão precoce precisa ser desconstruída.

“ A equipe multidisciplinar trabalha a criança de acordo com o que seria a “normalidade” naquele período. Então, o que ela deveria estar fazendo e não está? Fazemos toda essa sensibilização. As famílias ficam com a angústia de precisar de um diagnóstico o quanto antes, mas é preciso ter cuidado com laudos não assertivos ”, alerta.

Vieira esclarece que a musicoterapia utiliza todos os elementos que compõem a música — como som, harmonia, ritmo, letra e melodia —, que estimulam a criança como um todo.

— Chegavam para mim pacientes com nível três de autismo (mais grave) com quem já tinham sido feitas diferentes abordagens terapêuticas. As possibilidades se esgotavam e eles vinham para a musicoterapia. O autista, muitas vezes, fica no mundo dele e, com o tratamento, o acesso à criança era melhor: ela se tornava mais responsiva e conseguia se organizar melhor psiquicamente ” relata.

Vieira acrescenta que, em pacientes neurológicos, sindrômicos e com questões de mobilidade, é possível usar instrumentos percussivos. Ela reforça que a musicoterapia também pode oferecer muitos benefícios para a saúde mental.

A especialista, por exemplo, utiliza a musicoterapia no trabalho com mulheres que têm algum diagnóstico em saúde mental, como ansiedade generalizada, fobia social, síndrome do pânico e depressão maior.

“ Uso letras de canções para acessar eventos traumáticos. Consigo trazer uma nova visão de vida e possibilidades para elas se verem mais protagonistas de suas vidas ”, diz.

FONTE: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2024/01/07/musicoterapia-entenda-como-o-uso-da-musica-ajuda-no-tratamento-de-autistas.ghtml

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