Em adolescentes e adultos jovens, a síndrome do retardo da fase do sono (SRFS) pode cursar com o transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade (TDAH) e com a síndrome das pernas inquietas, que agravam a insônia inicial. Uma apresentação no Congrès du Sommeil 2025 revisou as estratégias de rastreamento e a conduta diante desses quadros intimamente relacionados.
“A SRFS, a síndrome das pernas inquietas e o TDAH compartilham mecanismos neurofisiológicos, genéticos e clínicos, agravando-se mutuamente”, explicou a Dra. Sylvie Royant-Parola durante sua apresentação. A associação dessas três entidades configura um “trio infernal”, que intensifica a dificuldade de adormecer e acentua o atraso da fase do sono. “É nesse contexto que o impacto clínico atinge seu auge”, afirmou.
“A SRFS leva à privação de sono, o que favorece o surgimento de sintomas depressivos. Esse cenário pode agravar a síndrome das pernas inquietas ou até mesmo a deflagrar, sobretudo quando se inicia o uso de antidepressivos. Todo esse processo interfere no TDAH, contribuindo para sonolência diurna, fadiga e baixo desempenho acadêmico.”
Nesses casos, o diagnóstico é ainda mais complexo, pois “os sinais e sintomas se superpõem”, acrescentou a psiquiatra especialista em transtornos do sono. “A associação desses quadros dificulta o tratamento […] e justifica uma avaliação em vários níveis, inclusive do metabolismo do ferro”, visto que a deficiência desse micronutriente é a principal causa da síndrome das pernas inquietas. Segundo ela, o tratamento deve ser “individualizado e abrangente”.
A SRFS caracteriza-se por uma alteração crônica do horário de adormecer e despertar, com atraso de várias horas para início do sono. Quando precisam acordar cedo, esses pacientes acumulam uma dívida de sono, o que resulta em sonolência, dificuldade de aprendizado e alterações do humor.
Na adolescência, mudanças hormonais da puberdade, associadas a uma maior sensibilidade do sistema circadiano à luz no período noturno, são apontadas como fatores envolvidos na desaceleração do relógio biológico. O quadro pode ser agravado por hábitos comportamentais, como maior tempo de exposição a telas e atividades noturnas. Estima-se que quase um em cada cinco adolescentes apresente esse distúrbio.
O transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade também é mais frequente nessa faixa etária, sobretudo entre indivíduos com atraso da fase do sono. “O TDAH acomete cerca de 5% dos adolescentes e está presente em aproximadamente 26% dos adolescentes e adultos jovens com SRFS”, explicou a psiquiatra. Além disso, “o transtorno tende a ser mais grave quando há essa associação”.
O TDAH costuma persistir da infância até a adolescência e se manifesta por dificuldades de atenção, hiperatividade e/ou impulsividade inadequadas para a idade, com impacto importante na vida cotidiana. Embora a hiperatividade motora diminua na adolescência, o transtorno segue associado a maior risco de fracasso escolar, ansiedade e adoção de comportamentos de risco.
A atividade física deve ser incentivada
Além da SRFS, o TDAH também costuma estar associado à síndrome das pernas inquietas em adolescentes, sugerindo “o compartilhamento das vias fisiopatológicas”. Consequentemente, “todo adolescente com TDAH e/ou síndrome das pernas inquietas que apresente queixas relacionadas ao sono deve ser submetido a rastreamento sistemático dos transtornos associados”, comentou a Dra. Sylvie.
A síndrome da apneia obstrutiva do sono pode ser investigada, mas “apenas diante de sinais e sintomas sugestivos”, como ronco e pausas respiratórias. “Até o momento, nenhum estudo demonstrou aumento da prevalência dessa síndrome em adolescentes com SRFS”, visto que os mecanismos fisiopatológicos são distintos.
No tratamento da SRFS, recomenda-se uma abordagem cronobiológica, com o uso de sincronizadores, sobretudo a exposição à luz natural pela manhã. A fototerapia consiste na exposição à luz branca que simula a luz do dia por um período determinado, com o objetivo de corrigir a defasagem da fase do sono.
A prática de atividade física diária também é recomendada, devendo-se evitar exercícios no período noturno próximos ao horário de dormir. “Para os adolescentes, o melhor horário para se exercitar varia conforme o cronotipo”, explicou a especialista. Para a maioria daqueles com SRFS, o período entre 13h e 15h parece favorecer o adormecimento à noite.

A abordagem é em grande parte multidisciplinar e multimodal, por meio de cronoterapia, intervenções comportamentais e, se necessário, apoio psicológico e psiquiátrico. Recomenda-se em especial limitar o uso de telas a no máximo duas horas à noite, com suspensão pelo menos uma hora antes de dormir.
Nos casos de síndrome das pernas inquietas, o tratamento inicial concentra-se na correção de eventual deficiência de ferro. Embora ainda pouco compreendida, a síndrome está frequentemente associada a alterações na regulação desse micronutriente. As recomendações indicam suplementação quando os níveis de ferritina são inferiores a 75 µg/L. Também devem ser evitados fatores que agravam os sintomas, como cafeína, bebidas alcoólicas e tabagismo.
A prática regular de atividade física ao longo do dia é aconselhável, assim como exercícios de alongamento antes de dormir. Nos quadros leves, essas medidas, associadas à regularidade dos horários de dormir e despertar, podem ser suficientes para aliviar os sintomas.
Em caso de TDAH, as intervenções comportamentais seguem como estratégia inicial antes da prescrição de medicamentos para melhorar o sono. Isso inclui a estruturação de rotinas noturnas, como evitar a exposição a telas antes de deitar. Em casos de queixas persistentes, os ansiolíticos hidroxizina (Atarax) e alimemazina (Théralène) podem ser usados para facilitar o adormecimento.
Por fim, como os distúrbios do sono são um importante fator de risco para depressão, “o acompanhamento conjunto com um psiquiatra também se faz necessário”, afirmou a Dra. Sylvie. Segundo a especialista, “a relação entre a SRFS e a depressão é muito forte”, e a privação de sono deve ser considerada um sinal de alerta clínico relevante.
FONTE: https://portugues.medscape.com/viewarticle/%C3%ADntima-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-s%C3%ADndrome-do-retardo-2026a10002ot?form=fpf