20/06 | 2 anos de Coletivamente

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Capacitismo e neurodivergentes

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O termo neurodiversidade foi usado pela primeira vez em 1998 pela socióloga Judy Singer, para defender que o funcionamento cerebral não se dá de forma padrão, que não é igual para todos os indivíduos, sendo assim possível diversas formas de existir, de pensar e de agir de acordo com o funcionamento cerebral de cada um. O termo foi rapidamente adotado como um movimento social a favor do respeito às diferenças e às individualidades e que defende o conceito de diversidade enquanto forma de ser, e não como déficit. Dentro da neurodiversidade, inclui-se um grupo diverso de transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Dislexia, Síndrome de Torette, Síndrome da apraxia infantil, dentre outros diagnósticos que têm como origem um funcionamento neurológico distinto do normativo ou “padrão”.

O surgimento de relato de pessoas adultas no Espectro, como Temple Grandin, por exemplo, que tem livros publicados nos quais relata sua forma particular de aprendizado e de perceber o mundo, foram fundamentais para incluir o TEA na linha da neurodiversidade. O reconhecimento da neurodiversidade modifica não só a forma de se pensar as linhas de intervenção, mas também na etiologia do autismo, que sai de um lugar de patologia e passa a ser relacionado à biologia e funcionamento cerebral, tornando utópico o desejo de padronizar o comportamento e desempenho das pessoas quando consideramos os cérebros como tendo funcionamentos diversos.

Além de repensar o conceito de funcionamento cerebral como sendo plural, é preciso associar a isso o combate ao capacitismo que é, segundo Ávila, a ideia de que para ser considerado normal, o corpo precisa ser perfeito e que quaisquer outros corpos se enquadram como “deficientes”. O capacitismo reforça a ideia de padronização dos corpos, dos funcionamentos e da forma de atuar e marginaliza, exclui e oprime pessoas com características que fogem ao “padrão”, uma vez que considera a deficiência como um déficit. Embora o capacitismo possa mais facilmente ser associado a pessoas com deficiência física, sabemos que abarca todo o funcionamento que foge do padrão, da norma. Combater o capacitismo e aceitar a neurodiversidade se faz urgente em uma sociedade que se apresenta, cada vez mais, plural e que começa a ter, ainda que com décadas de atraso, políticas públicas que promovem a inclusão.

No Brasil, não temos dados atualizados sobre a prevalência do autismo, mas de acordo com dados do CDCP (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos,2020, a prevalência é de um em cada 54 nascimentos. Temos, cada vez mais, pessoas autistas ocupando os diversos lugares na sociedade e faz-se urgente uma reflexão sobre a pretensão de padronizar comportamento, funcionamento e pensamento e se pensar em políticas públicas de incentivo à inclusão destas pessoas na rede de ensino, no mercado de trabalho e na sociedade como um todo.

Fonte: Diário de Pernambuco (https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/opiniao/2024/04/capacitismo-e-pessoas-neurodivergentes.html)

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