Durante anos, Tisha Campbell falou sobre autismo a partir da experiência de ser mãe. O filho da atriz, Xen, recebeu o diagnóstico aos 18 meses, e a trajetória da família deu origem ao livro “The A Word: A Mother’s Journey Through Autism and Love”. Depois de concluir a obra, no entanto, Tisha descobriu que sua relação com o tema era mais pessoal do que imaginava: aos 57 anos, recebeu diagnóstico de autismo e TDAH.
A investigação começou por sugestão de sua terapeuta. Tisha procurou dois especialistas e passou por diferentes avaliações antes de chegar ao diagnóstico. Entre as características que passaram a fazer mais sentido está a maneira como lida com estímulos sonoros. A atriz contou que costuma usar fones para bloquear ruídos porque sente como se os sons chegassem “todos de uma vez”.
Alterações na resposta a estímulos sensoriais podem aparecer no espectro autista, mas não são suficientes, isoladamente, para estabelecer um diagnóstico. O pediatra Thiago Castro explica que a avaliação precisa considerar um conjunto mais amplo de características e a história de cada pessoa.
“O autismo pode se manifestar de formas muito diferentes. Algumas pessoas apresentam alterações mais perceptíveis na comunicação e interação social, enquanto outras desenvolvem estratégias para compensar determinadas dificuldades. Sensibilidade a sons, luzes ou outros estímulos pode fazer parte desse conjunto, mas o diagnóstico precisa considerar a história e o funcionamento da pessoa de maneira ampla”, explica.
Tisha também contou que passou boa parte da vida tentando esconder determinadas características. Segundo a atriz, ela cresceu em um período em que sentia que não poderia demonstrar diferenças e aprendeu a adaptar seu comportamento para se encaixar socialmente.
A experiência ajuda a contextualizar uma questão discutida quando o diagnóstico de autismo acontece na vida adulta: algumas pessoas podem ter desenvolvido, ao longo dos anos, estratégias para lidar com situações que consideravam difíceis ou desconfortáveis.
Nova compreensão
Para Tales Vilela, psiquiatra especialista em Psiquiatria Infantil e diretor clínico do Instituto Essencialmente, em Alfenas (MG), um diagnóstico tardio pode levar a uma nova compreensão de experiências vividas anteriormente.
“Existem adultos que passaram a vida desenvolvendo estratégias para se adaptar socialmente e esconder dificuldades, muitas vezes à custa de um esforço emocional muito grande. Quando o diagnóstico acontece mais tarde, ele pode ajudar a dar sentido a situações que antes eram interpretadas como inadequação, excesso de sensibilidade ou dificuldade pessoal. Não é sobre transformar toda a história em um diagnóstico, mas compreender melhor como aquela pessoa funciona”, contextualiza.
Esse processo de adaptação também pode contribuir para que determinados sinais passem despercebidos durante anos. A questão é particularmente discutida quando se trata de mulheres, já que algumas características podem ser interpretadas como timidez, ansiedade, sensibilidade ou traços de personalidade.
“Quando os sinais são menos evidentes, eles podem passar despercebidos durante muito tempo. Por isso, mais importante do que comparar uma pessoa com uma imagem estereotipada do autismo é compreender seu desenvolvimento, sua história e as dificuldades que ela enfrenta no cotidiano”, afirma Thiago.
Possibilidade de coexistência
A história de Tisha também chama atenção para a possibilidade de coexistência entre autismo e TDAH. Embora sejam condições distintas do neurodesenvolvimento, uma mesma pessoa pode receber os dois diagnósticos. A combinação é chamada informalmente de “AuDHD”.
“Autismo e TDAH são diagnósticos distintos, embora possam coexistir. Existem características que, vistas isoladamente, podem até gerar confusão, por isso uma avaliação cuidadosa é fundamental. É preciso compreender desde quando os sinais estão presentes, como aparecem em diferentes contextos e qual impacto provocam na vida da pessoa”, ressalta Tales.
O relato da atriz pode contribuir para ampliar a conversa sobre diagnósticos feitos na vida adulta, mas também exige cuidado para não transformar identificação pessoal em autodiagnóstico.
“Reconhecer-se no relato de alguém pode ser um motivo para buscar avaliação, mas não para concluir sozinho que possui autismo ou TDAH. O diagnóstico exige uma investigação individualizada e realizada por profissionais habilitados”, completa o psiquiatra.