20/06 | 2 anos de Coletivamente

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Autismo em mulheres idosas

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O TEA (transtorno do espectro autista), condição ligada a déficits no neurodesenvolvimento, vem sendo cada vez mais diagnosticado na infância, sendo o diagnóstico precoce uma das pautas centrais da causa. No entanto, devemos salientar a quantidade expressiva de adultos ainda não diagnosticados ou subdiagnosticados, sendo as mulheres as mais alijadas desse processo. Os meninos têm quatro vezes mais chances de receber o diagnóstico do que as meninas, embora ambos os sexos possam apresentar autismo. Pesquisas apontam que cerca de 80% das mulheres autistas de 18 anos ainda não haviam sido diagnosticadas, o que nos leva a refletir sobre o contingente de mulheres idosas que passaram a vida sem serem vistas, compreendidas ou tratadas.

Este texto tem o propósito de colaborar com a desmistificação sobre a suposta idade limite para o diagnóstico. Baseada em minha própria história, cujo diagnóstico se deu aos 56 anos, recordo quantas vezes ouvi: “Para quê você quer buscar isso nessa idade?” ou “O que mudará na sua vida?”.

Cresci e vivi me adaptando às expectativas sociais, sem saber ao certo por que me sentia diferente das pessoas em geral e por que me cansava tanto para cumprir coisas que, para elas, eram corriqueiras. O mascaramento que refinei ao longo dos anos, apesar de demonstrar enorme habilidade de adaptação, foi o fator crucial que me levou a despertar tão tarde para a necessidade de entender o que realmente acontecia comigo. O mascaramento é um dos grandes inviabilizadores de um diagnóstico adequado, já que mulheres tendem a ser mais colaborativas e a internalizar sentimentos, sem demonstrar a carga que lhes é imposta.

É importante compreender que, mesmo para idosas, o diagnóstico pode ser esclarecedor, oportunizando a compreensão de suas vivências e comportamentos, tanto passados quanto atuais. Ele traz alívio, autorreconhecimento e validação, confirmando os porquês de seus desafios, dificuldades e também de seus pontos fortes. Além de reconhecer-se e buscar apoio especializado para promover sua qualidade de vida, o diagnóstico auxilia familiares, amigos e cuidadores a compreenderem melhor suas necessidades e comportamentos, facilitando interações e flexibilizando as formas de lidar com rotinas.

Não é uma busca fácil…

Não desejo, contudo, fazer parecer que essa busca pelo diagnóstico seja fácil. Muito pelo contrário: exige coragem para superar inúmeros desafios. Vou citar alguns dos mais comuns, enfrentados também por mim. Afinal, o que torna um texto mais interessante é justamente a realidade que ele transmite. Creio que um dos maiores desafios é “convencer” o profissional de saúde da necessidade do diagnóstico, até porque, infelizmente, no Brasil, as formações deixam muito a desejar no que diz respeito ao conhecimento sobre o transtorno. Muitos ainda acreditam que o diagnóstico só é necessário na infância, e que, se você olha nos olhos, conseguiu estudar, tem um emprego… não pode ser autista. Por isso, é essencial buscar um profissional que alie expertise e compreensão tanto do TEA quanto da senescência.

O contexto histórico em que nós, idosos, fomos criados também deve ser considerado. A saúde mental não era encarada com naturalidade, e desde cedo aprendemos a disfarçar comportamentos considerados “estranhos”, para não levantarmos suspeitas de nossas diferenças — então chamadas, de forma equivocada, de “loucuras”. Os desafios emocionais estiveram e estão sempre presentes. Não há como fugir: sentimos medo, ansiedade, preocupação sobre como expor (ou não) esse diagnóstico à família e à sociedade; receio de como irão nos encarar dali em diante e se isso ocasionará a perda de amigos e afetos. E não pense que essas perdas não acontecem: cabe a você pesar o valor de quem vai e de quem fica.

Outro desafio importante é reconhecer sintomas que se sobrepõem, o que pode dificultar bastante a busca pelo diagnóstico correto. Exemplos incluem condições psicológicas e neurológicas, como ansiedade, depressão, déficit de memória, dificuldades de foco e declínio cognitivo. Segundo Muller (2019), o autismo e os transtornos concomitantes são frequentemente confundidos em mulheres com transtornos de personalidade ou de humor. No meu caso, apresentei ao longo da vida quadros de fibromialgia, depressão, alergias, pânico e fobias, sem despertar o olhar médico para um provável diagnóstico.

De acordo com DaWalt et al. (2021), mulheres autistas frequentemente recebem diagnósticos equivocados de transtorno de personalidade, o que agrava ainda mais a inadequação dos serviços de saúde. Bota & Frost (2020) enfatizam que a intersecção entre gênero e autismo pode amplificar as disparidades de saúde, já que mulheres autistas enfrentam simultaneamente capacitismo e sexismo nos sistemas de saúde. Embora apresentem maior necessidade de cuidados, mulheres idosas, ou não, têm mais dificuldades de acesso a serviços que atendam suas necessidades físicas e mentais. Entre as barreiras estão: pouco conhecimento dos profissionais sobre o transtorno, invalidação das sensibilidades sensoriais em ambientes clínicos (como iluminação, ruídos ou procedimentos invasivos), além da falta de empatia que compromete a relação paciente-profissional.

Devemos ter consciência de que os tratamentos no autismo não se aplicam a todos de forma linear e, sobretudo, que as “receitas de bolo” não funcionam no caso das mulheres. A mente autista feminina se apresenta de maneira diversa, e, nas idosas, os tratamentos exigem ainda mais sensibilidade e conhecimento. Um tratamento mal direcionado, sem acesso adequado ou compreensão por parte do cuidador, pode gerar malefícios e resultados desastrosos.

Se as causas e consequências do TEA em crianças, fase mais estudada, ainda nos reservam tantas surpresas e novidades, imagine quanto ainda falta pesquisar sobre o autismo em idosos. Estudos recentes têm levantado questões preocupantes: autistas apresentam taxas maiores de transtornos psiquiátricos graves e praticamente todas as condições médicas, o que resulta em aumento da mortalidade. Em média, indivíduos autistas falecem de 10 a 15 anos mais cedo do que indivíduos não autistas. Idosos autistas enfrentam risco aumentado de demência e doença de Parkinson, segundo estudos de 2021 da Autism Research e, mais recentemente, registros do Medicaid e Medicare. Infelizmente, ainda não se sabe por que o autismo aumenta as chances dessas doenças neurodegenerativas.

O estigma, definido como uma “atitude social negativa associada a uma característica de um indivíduo que pode ser considerada uma deficiência mental, física ou social” (APA, 2018), pode se tornar um ciclo interminável se não nos posicionarmos. Estigmas e estereótipos na compreensão profissional sobre o autismo certamente se refletem em cuidados de baixa qualidade. Opiniões negativas sobre a neurodiversidade podem atrasar diagnósticos e impedir que pessoas idosas com TEA tenham tempo de se compreenderem e se aceitarem. Combater o estigma, tanto o internalizado quanto o social, é urgente. Não podemos mais aceitar comentários como “por que justo agora, nessa idade?”. A hora do idoso é agora! Melhor reconhecer esses sentimentos e combatê-los hoje do que perpetuar esse ciclo cruel de exclusão.

Investimento é prioridade

A necessidade de investimentos em pesquisa sobre saúde e envelhecimento em idosos, principalmente em mulheres, deve ser vista como prioridade. O sexo feminino apresenta maior predisposição a condições como epilepsia, distúrbios genéticos e transtornos alimentares, além de maior risco de mortalidade e suicídio em comparação aos homens. Também é urgente promover adaptações para apoio aos déficits apresentados, ambientes adequados e capacitações profissionais contínuas.

Voltando à questão da evitação, muitas autistas (inclusive eu) descrevem dificuldades sensoriais em procedimentos médicos, como exames ginecológicos, cervicais e mamografias. Isso pode se tornar uma barreira para a realização de exames preventivos e consultas. Procedimentos malconduzidos podem inviabilizar tratamentos específicos, sobretudo por causa da hipersensibilidade sensorial e da alta sensibilidade à dor. Isso reforça a importância de cuidados adaptados para garantir equidade no acesso aos serviços necessários.

Estamos cansadas de nos sentirmos frustradas, tristes, culpadas, incompreendidas e julgadas. A visão do futuro torna-se mais um fardo, pois os impactos da idade, somados às condições existentes, aumentam a ansiedade em relação ao agravamento do quadro de saúde e às hospitalizações que poderiam ser evitadas.

Nossa experiência de vida e nossos saberes precisam ser validados. Por isso, deixo algumas recomendações que considero importantes para profissionais de saúde mais atentos: sempre questionar as autistas sobre suas necessidades específicas, evitar suposições e julgamentos, oferecer ajustes e adaptações apropriados, respeitar as peculiaridades de cada uma, facilitar formas de comunicação, fornecer informações claras por escrito (antes e depois das consultas), perguntar sobre as necessidades sensoriais e tornar as consultas mais acolhedoras.

Por fim, espero ter contribuído para o combate ao capacitismo e ao etarismo, reforçando a importância do conhecimento, preparo e sensibilidade do profissional para garantir acessibilidade ao diagnóstico e tratamento de mulheres autistas idosas.

Fontes

Associação Americana de Psicologia (2018). Estigma. Dicionário APA de Psicologia.
Disponível em: https://dictionary.apa.org/stigma

Blair Braden, B., Amaral, D. G. (2025). Idosos autistas enfrentam risco aumentado de demência e doença de Parkinson — pesquisa cerebral post-mortem pode revelar o porquê. Autism Spectrum News.
Disponível em: https://autismspectrumnews.org/elderly-autistic-adults-face-increased-risk-of-dementia-and-parkinsons-disease-postmortem-brain-research-may-reveal-why/

Botha, M., Frost, D. M. (2020). Ampliando o modelo de estresse minoritário para compreender os problemas de saúde mental vivenciados pela população autista. Sociedade e Saúde Mental, 10(1), 20–34.
Disponível em: https://doi.org/10.1177/2156869318804297

DaWalt, L. S., Taylor, J. L., Movaghar, A., Hong, J., Kim, B., Brilliant, M., Mailick, M. R. (2021). Perfis de saúde de adultos com transtorno do espectro autista: diferenças entre mulheres e homens. Autism Research, 14(9), 1896–1904.
Disponível em: https://doi.org/10.1002/aur.2563

Muller, R. T. (2019). Por que mulheres com autismo são tão frequentemente diagnosticadas erroneamente. Psychology Today.
Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/talking-about-trauma/201905/why-women-autism-so-often-are-misdiagnosed

Medicaid é um programa de saúde social dos Estados Unidos para famílias e indivíduos de baixa renda e recursos limitados.

Medicare é um seguro federal para pessoas com 65 anos ou mais, pessoas com certas deficiências ou com doença renal em estágio avançado.

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