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Descoberta após o parto

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O depoimento a seguir, dado à repórter Aline Ribeiro, foi publicado no jornal “O Globo” e retrata a rotina da tradutora Anielle Casagrande, que descobriu ser portadora de TEA após o parto da filha. É emocionante e impactante:

“A gente passou 13 anos planejando a gravidez, esperando um momento mais tranquilo. Até que descobri que era infértil, não tinha óvulos. Fiz tratamento, levei 14 meses para conseguir um único óvulo. Engravidei em fevereiro. Em março, veio a pandemia. Dois meses depois, perdi meu padrasto na Alemanha. Ele não morreu de Covid-19, mas por causa dela. Não quis ir para o hospital e morreu de infarto. Foi tudo junto. Minha gravidez foi fechada em casa, isolada e de luto.

No fim, foi meio que uma sorte. Por tudo isso, comecei a deprimir e fui encaminhada a uma psicóloga. Ela percebeu que tinha alguma coisa além da depressão, e me mandou pra uma psiquiatra. Essa psiquiatra disse: “olha, eu acho que você tem alguma coisa, mas eu não sei o que é, e levo um ano pra dar diagnóstico”. Meu bebê nasceu no mês seguinte, e eu passei o primeiro ano inteiro da vida dele sem saber o que eu tinha. Foi muito tenso, porque ela me passou um remédio que era para autismo ou esquizofrenia. E daí eu olhava aquele remédio e falava: “será que é esquizofrenia?”. Porque eu tenho muito pensamento rígido, sabe? Quando a pessoa é bem cabeça dura, gosta muito de regras, de seguir um padrão. Eu nem sabia o que era autismo. Só lembrava daquela imagem clássica das crianças autistas balançando e não verbais, né? Pensava: “não, não deve ser autismo, deve ser esquizofrenia.

Sociabilidade nunca foi ponto forte

Nunca fui uma pessoa muito sociável. Já era mais rígida, tinha dificuldade de sair de casa. Com a pandemia, piorou tudo. A minha qualidade de vida piorou muito. Não consegui me recuperar até hoje.

Se eu tivesse tido um diagnóstico, minha vida teria sido muito diferente. No parto, por exemplo, tive sensibilidade com tudo: o cateter na minha veia, a luz, gente encostando em mim… Tive uma crise, fiquei não verbal, não conseguia falar. Foi meu marido quem decidiu que eu faria uma cesariana e falou com a obstetra. Aguentei sete horas de trabalho de parto e surtei. Se eu tivesse um diagnóstico, teria sido tudo muito diferente. Teria tido um preparo. E a mesma coisa quando o meu bebê nasceu — não conseguia ficar sozinha com ele. Meu marido assumiu os cuidados de madrugada. Então, eu tinha que ficar sozinha com ele para o meu marido dormir e trabalhar. Eu não conseguia… Não conseguia lidar com o barulho do choro. Ele começava a chorar, eu ficava apavorada, entrava em crise, ficava desesperada. Eu saía de casa e ficava andando na rua, dando voltas. Autistas têm uma intolerância maior ao barulho. Até hoje, tenho pavor de ficar sozinha com ele, e ele já tem três anos. É uma questão de interação mesmo. Tenho muita dificuldade. Até interajo, mas me canso muito mais rápido que o normal.

Não sou muito boa em leitura facial. Não consigo identificar se a pessoa está tirando sarro da minha cara ou fazendo uma brincadeira. Não conseguia olhar para o bebê e identificar o que ele queria. Será que ele quer mamar? Será que ele quer dormir? Eu não sei. E ainda tenho essa dificuldade. Com bebê é pior, porque eles não falam. Então, meu filho Nicolas chorava e eu ficava assim… Meu Deus, o que eu faço?

Muita culpa

Até hoje, sinto muita culpa. Porque meu marido acaba sendo o principal cuidador. É ele que escova os dentes, dá remédio, dá banho. Ele brinca mais também. Eu gosto mais da outra parte, organizar as roupas, a comida, fazer a mala da escola. Eu já dei banho nele, mas fico apavorada. Levei sete meses para aprender a fazer ele dormir. Não conseguia identificar se ele estava quase dormindo ou não. Meu marido falava: “é muito simples, é só ninar, fazer isso quando ele faz aquilo…” Mas eu não estava vendo nada disso.

Sempre pensei que eu era uma mãe ruim. Até hoje rola um pouco disso, sabe? Uma culpa gigante. Até porque fiquei 13 anos planejando essa gravidez. Tinha na minha cabeça que meu marido iria trabalhar e eu cuidar da criança sozinha. Não aconteceu.

Foi maravilhoso ter o diagnóstico. Claro que no começo fiquei de luto. Existem três graus de autismo: leve, moderado e severo. Sou autista grau dois. Não é leve. Tenho uma necessidade de suporte considerável. Não consigo sair de casa sozinha.

As coisas passaram a fazer sentido

Depois do diagnóstico, comecei a olhar para a minha vida inteira e entender porque era daquele jeito. Eu até conseguia trabalhar fora, mas sofria muito. Conseguia andar de ônibus, mas sofria muito. Sempre pensei: “Sou sensível, ou fresca”. Agora tudo faz sentido, explicou a minha vida inteira. Desde criança, tinha muitos sinais de autismo. Só que ninguém nunca percebeu, não tinha informação. Eu gostava de fama icar correndo em círculos, de ficar piscando o olho. Tinha mania, por exemplo, de fazer tudo com as duas mãos. Durante uma época, gostava de andar e chutar a bunda com o calcanhar. Isso tudo é estereotipia. Sempre tive dificuldade de fazer amizade. Andava com a criança mais esquisita da turma. Tinha seletividade alimentar. Tudo que vejo no meu filho hoje eu tinha.

Para meu marido, pesou muito, muito, muito. Ele entrou em depressão, teve burnout paterno. A gente ainda não tem certeza, mas tudo indica que o Nicolas também é autista. Então estamos nessa correria de terapia ocupacional, psiquiatra, neuro, e atrás do diagnóstico há um ano. Meu marido tem que cuidar de mim e do Nicolas, porque eu não dirijo e eu não saio de casa sozinha. Ele trabalha o dia inteiro e, de madrugada, ainda cuida do Nicolas. Depois leva nós dois ao psiquiatra, à terapia… Ele está se doando, doando a saúde mental e o tempo dele para ver a gente melhor, mas é uma sobrecarga bem grande.

É delicado para mim falar sobre isso. Mas acho que alguém tem que falar. Se a gente não falar, vão continuar achando que nós somos mães ruins. E eu não sou uma mãe ruim. Eu só preciso de mais suporte do que a maioria.”

FONTE: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2023/12/26/nao-sou-uma-mae-ruim-so-preciso-de-mais-suporte-diz-tradutora-que-descobriu-autismo-apos-a-gravidez.ghtml

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