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Diagnóstico aos 30 anos

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Demorou cerca de 30 anos para que Leandro Oséas da Silva entendesse o porquê de algumas situações cotidianas parecerem tão desafiadoras a ele. Falar ao telefone, compreender uma piada sarcástica ou até mesmo sorrir eram características que não se encaixavam com a personalidade do blumenauense por algum motivo.

Até que um laudo médico enfim trouxe as respostas: o professor de música foi diagnosticado com autismo nível 1. A descoberta na vida adulta não só o ajudou a ser mais gentil consigo mesmo, como também transformou o olhar dele na profissão, que passou a levar experiências únicas para os alunos e a lecionar de forma ainda mais acolhedora a partir de então.

Atualmente, Leandro, 38, é professor na School of Rock, maior rede de escolas de música do mundo que inaugurou a primeira unidade em Blumenau em abril deste ano. Ali, ele dá aulas de musicalização e violino para adultos e crianças. No caso dos pequenos, Leandro ensina de forma didática como surgem os sons e faz com que os alunos se encantem tanto quanto ele pela arte que o fascina desde a infância.

O blumenauense começou a tocar violino com 10 anos de idade e carrega na bagagem uma carreira de duas décadas na música. Já a descoberta do Transtorno do Espectro Autista (TEA) só veio depois dos 30, mas nunca foi empecilho para que ele continuasse trabalhando com aquilo que ama. Muito pelo contrário. Agora, Leandro se enxerga ainda mais como parte desse meio.

— Quando eu estou com os alunos, eu sou alguém que vai trazer novidade para eles. Naturalmente a gente fica em uma posição de destaque, mas eu não me coloco acima deles. Sou só o “prof” Léo. A visão que eles têm de mim é de que eu sou um cara muito massa. E eu não estou fingindo. É parte de mim que eu estou doando naquele momento, não importa quais sejam os mecanismos — ressalta.

Com os alunos, o professor conta que costuma compartilhar o diagnóstico para que compreendam questões relacionadas ao comportamento dele. As maiores dificuldades, segundo Leandro, são voltadas à socialização e, por isso, ele tende a não ser muito comunicativo. Essa característica, no entanto, não impede o violinista de interagir com as crianças. No fim, é exatamente desse jeito, com essas particularidades, que ele se torna amado pelos alunos.

— Às vezes as pessoas olham e falam: “Nossa, mas tu? Como assim? Tu é violinista, tu toca”. Só que isso não interessa, né? É meu trabalho. Eu sou bom no que eu faço porque eu estudei para isso — reforça o blumenauense.

A descoberta do diagnóstico

Desde a infância Leandro tem uma facilidade fora do comum para desenvolver habilidades artísticas. Com o incentivo dos pais, ele decidiu tocar violino quando ainda era apenas uma criança e nunca mais abandonou o instrumento. Hoje, ele entende que o fascínio pelo assunto é, na verdade, um hiperfoco — ou seja, quando pessoas com Transtorno do Espectro Autista apresentam um interesse intenso e altamente focado por um determinado tema.

— Eu aprendo muito, principalmente através dos meus hiperfocos porque é tudo muito restrito. Não sei falar sobre outras coisas, não consigo. Minhas percepções sensoriais também são bem à flor da pele. Além de precisar de muita rotina — explica.

Leandro com um dos instrumentos que ele mesmo fabricou em mãos (Foto: Arquivo pessoal)
A desconfiança de que essas características pudessem estar relacionadas ao autismo só surgiram a partir de uma observação da ex-esposa de Leandro, que sugeriu testes on-line ao parceiro. Ao perceber que muitos comportamentos se encaixavam com a personalidade dele, o músico decidiu procurar a ajuda de um especialista e não demorou para que o laudo fosse confirmado.

— Eu tive que começar do zero, perdi o chão porque não sabia mais quem eu era ou o que era o autismo. Mas eu descobri que eu sou eu. Nesses 30 anos eu poderia ter passado menos trabalho, mas as pessoas na minha época não tinham esse conhecimento. E aí as pessoas pensam que agora é uma moda [ser autista]. Mas não. É que muitas pessoas estão sendo diagnosticadas hoje porque naquela época não foram — relata.

No caso de Leandro, ele foi diagnosticado com autismo nível 1 de suporte, também conhecido popularmente como “autismo leve”. Além deste, há também o nível 2 — considerado moderado — e o 3, quando se trata de uma situação mais severa.

O professor de música ressalta, no entanto, que as dificuldades enfrentadas por quem se enquadra no primeiro nível também são desafiadoras, apesar de serem menos perceptíveis. Leandro explica que os desenvolvimentos intelectual e da linguagem, por exemplo, não foram afetados pela condição, mas que ainda assim enfrenta situações desconfortáveis no dia a dia.

Antigamente, para que conseguisse esboçar um sorriso — algo que não considerava confortável — ele recorda que tinha de treinar em frente ao espelho para que não fosse considerado diferente dos outros. Hoje, porém, ele entende que essa é uma característica que não faz parte dele e que deve ser respeitada, sem qualquer culpa ou correção.

— Eu acho que posso ser útil de alguma forma para a comunidade autista, expondo que o autista não é só o autista nível 2 ou 3. O nível 1 passa por problemas que vocês não podem imaginar. Às vezes a gente acorda de manhã e não consegue nem levantar. E não tem explicação, não tem algo simples para resolver, a gente vai ter que se arrastar durante o dia para fazer as coisas — diz.

Uma nova oportunidade de se conhecer

Além de atuar como professor de música, Leandro também tem um atelier onde constrói cópias e restaura instrumentos musicais antigos. Determinado a aprender mais sobre o assunto, ele viajou por 12 países. E tudo isso só foi possível, também, graças ao incentivo que sempre recebeu da família.

— O apoio que tive da minha família foi imprescindível para que eu pudesse entender a minha condição. Tive um diagnóstico tardio e, mesmo assim, o amor e suporte dos meus pais foram muito importantes — afirma Leandro.

Agora, ele descobriu um novo propósito além da música e espera mudar a visão estereotipada que muitas pessoas ainda têm sobre o autismo, especialmente relacionado ao nível 1. Para Leandro, a virada de chave está na busca pelo conhecimento. Seja para quem precisa do diagnóstico ou para conscientização do restante da sociedade.

— É muito triste para quem é autista e só descobre na fase adulta, né? Porque a gente vive uma vida com muita dificuldade. Mas isso não mudou muita coisa na minha conduta, como professor ou músico. Só me entendi e dei mais espaço para o que eu estava sentindo. Hoje eu me conheço muito melhor — finaliza.

Fonte: NSC Total (https://www.nsctotal.com.br/noticias/professor-de-musica-em-blumenau-descobre-autismo-aos-30-e-leva-novo-olhar-para-as-aulas)

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