Se seu filho come sempre os mesmos alimentos, é possível que você já tenha tentado de tudo: insistir em “só uma mordidinha”, esconder alimentos nas preparações, negociar uma sobremesa, retirar aquilo que ele gosta ou até esperar que a fome faça com que ele aceite algo diferente. E talvez nada disso tenha funcionado.
Quando falamos de seletividade alimentar no autismo, precisamos entender que comer não depende apenas de fome ou vontade. Características sensoriais, previsibilidade, rigidez, experiências anteriores e até a forma como o alimento é apresentado podem interferir na aceitação.
Por isso, neste artigo eu não quero apenas explicar a seletividade alimentar. Quero propor algo que você possa começar a fazer em casa.
Durante os próximos sete dias, vamos trabalhar com apenas um alimento. E já adianto: o objetivo não é fazer seu filho comer esse alimento em sete dias. O objetivo é ajudá-lo a se aproximar dele sem transformar a refeição em uma batalha.
Primeiro: escolha apenas um alimento
Não abra a geladeira procurando justamente aquilo que você mais gostaria que seu filho comesse. Comece pensando: “O que já é familiar para ele?”. Se a criança aceita batata frita, por exemplo, talvez seja mais fácil começar explorando outra apresentação da batata do que colocar um brócolis no prato e esperar que ela aceite.
Se gosta de alimentos crocantes, podemos inicialmente procurar características semelhantes.
A ideia é construir uma ponte entre aquilo que já é seguro e aquilo que ainda é desconhecido. Agora vem uma regra importante: não retire o alimento que seu filho já aceita para colocar o novo no lugar. O alimento novo não precisa chegar como uma ameaça. Coloque uma quantidade muito pequena, às vezes, um único pedacinho é suficiente em um pratinho separado ou em uma parte do prato.
E não comece dizendo: “Experimenta”. ”Só uma mordidinha”. “Você nem sabe se não gosta”. “Se comer, ganha sobremesa”.
Nos primeiros contatos, nós queremos diminuir a pressão.
O exercício dos 7 dias
Durante uma semana, apresente o mesmo alimento em pequenas oportunidades de contato.
Você pode observar a tabela abaixo e seguir:

Mas atenção: isso não é uma escada que seu filho precisa cumprir. Ele não precisa tocar no terceiro dia, cheirar no quinto e experimentar no sétimo. Cada criança terá seu próprio ritmo. Algumas poderão avançar rapidamente. Outras precisarão de várias exposições apenas para tolerar aquele alimento próximo. E tudo bem. “Mas ele não comeu. Então não funcionou?”. Aqui está uma mudança de olhar que considero muito importante. Ao final da semana, em vez de perguntar: “Meu filho comeu?”. Experimente perguntar: “Meu filho conseguiu se aproximar um pouco mais desse alimento sem sofrimento?”.
Talvez no primeiro dia ele não permitisse que o alimento ficasse na mesa e, alguns dias depois, já tolerasse vê-lo no prato. Talvez não tenha colocado na boca, mas tenha conseguido tocar. Talvez tenha ajudado você a preparar.
Essas informações são importantes porque nos ajudam a entender em que ponto da relação com aquele alimento a criança está.
O comer pode ser o resultado final de um processo que começou muito antes da primeira mordida. Um detalhe que pode fazer diferença: não transforme cada aproximação em uma comemoração exagerada. Se a criança tocar no alimento e imediatamente ouvir: “ISSO! AGORA COME!”, ela pode perceber rapidamente que tocar era apenas o caminho para uma nova cobrança. Mantenha a experiência leve. Você pode simplesmente comentar: “Essa batata está macia”. “Olha o barulho quando quebra”. “Essa tem um cheiro diferente”. Assim, a criança pode conhecer características do alimento sem sentir que existe uma prova que precisa passar.
E se ele não quiser nem chegar perto? Isso também é uma informação. Se apenas ver determinado alimento provoca ânsia, choro, fuga, irritação intensa ou grande sofrimento, não force a progressão do exercício.
Se a criança apresenta repertório extremamente restrito, exclusão progressiva de alimentos, perda ou dificuldade de ganho de peso, deficiências nutricionais, engasgos, vômitos/ânsia frequentes ou sofrimento importante durante as refeições, é recomendável uma avaliação individualizada.
Seletividade alimentar não deve ser tratada simplesmente como “frescura” ou “falta de fome”. Quer fazer o exercício comigo? Eu preparei uma folhinha imprimível do Exercício dos 7 Dias para você registrar o alimento escolhido, como seu filho reagiu em cada exposição e quais pequenos avanços você observou durante a semana.
Você pode imprimir e deixar na cozinha para acompanhar o processo.
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