Segundo profissionais da saúde mental, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição complexa de diagnosticar, acompanhar e compreender. Como ele se manifesta em um espectro que varia de leve a grave, pessoas diferentes podem apresentar quadros completamente distintos. Além disso, o TDAH frequentemente se sobrepõe a outros transtornos mentais e comportamentais, como ansiedade, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Desafiador de Oposição (TOD).
Com o recente aumento nas taxas de diagnóstico entre crianças e adultos, parte da comunidade médica questiona se não há um excesso de identificação do quadro. Por outro lado, a ciência vem demonstrando que a trajetória da condição ao longo dos anos é muito mais dinâmica do que se pensava.
Isso porque, antigamente, estimava-se que cerca de 50% das crianças continuavam com o transtorno na vida adulta. Contudo, um estudo longitudinal — liderado pela pesquisadora Margaret H. Sibley e publicado no ‘Journal of Clinical Psychiatry’ — acompanhou 483 indivíduos por 16 anos e revelou que apenas 10% apresentaram “remissão sustentada” no início da vida adulta. Da mesma forma, apenas 10% mantiveram o transtorno de maneira contínua durante todo o período. Para a grande maioria, os sintomas oscilaram em ciclos de melhora e piora. Em suma, o TDAH não é uma condição estática.
Como os sintomas se transformam com a idade
Segundo a publicação do ‘The New York Times’, que foi a responsável por trazer o assunto à tona, o diagnóstico do TDAH divide-se em duas grandes categorias: desatenção e hiperatividade-impulsividade. Nas crianças muito pequenas, os sinais físicos de hiperatividade são mais evidentes. Nesse sentido, é comum observar a criança correndo sem parar, mexendo em tudo e demonstrando inquietação constante.
Em contrapartida, à medida que a pessoa cresce, o perfil da condição muda drasticamente:
Na infância (até 12 anos): Há uma distribuição equilibrada entre os perfis desatento, hiperativo-impulsivo e combinado.
Na adolescência (12 a 18 anos): Os sintomas de hiperatividade física começam a diminuir, enquanto a desatenção se torna a manifestação predominantemente mais frequente.
Na vida adulta: Menos de 7% dos adultos apresentam o subtipo focado em hiperatividade. A maioria se enquadra na versão combinada ou predominantemente desatenta.
Além disso, a própria hiperatividade muda de forma na fase adulta. Ela deixa de ser uma agitação visível e passa a se manifestar como uma inquietação interna e mental. A médica Deepti Anbarasan exemplificou ao veículo que adultos “podem sentir sempre a necessidade de estar ocupados, como se precisassem se exercitar todos os dias ou, caso contrário, não se sentissem bem”. Ou seja, no dia a dia dos adultos, a desatenção costuma impactar a logística pessoal, a gestão de tarefas domésticas sem prazo e a capacidade de manter o foco em conversas longas ou reuniões de trabalho.
Por que o TDAH muda ao longo da vida?
As transformações na manifestação do TDAH acontecem por uma combinação de fatores ambientais, comportamentais e neurológicos. Em primeiro lugar, o ambiente desempenha um papel crucial. Problemas familiares, como o divórcio dos pais, podem agravar os sintomas nos jovens. Da mesma forma, o ambiente escolar rígido exige um esforço de atenção focado em tarefas indesejadas, o que evidencia os prejuízos da desatenção.
Por outra perspectiva, o cenário pode melhorar na vida adulta quando a pessoa encontra uma carreira ou rotina que se adapte melhor ao seu temperamento. Nesse sentido, estratégias de enfrentamento e tratamentos adequados ajudam a controlar os impactos do transtorno:
Intervenções comportamentais: Costumam funcionar melhor para pessoas com perfil hiperativo-impulsivo.
2. Tratamento medicamentoso: Apresenta ótimos resultados em quadros com foco em desatenção.
3. Abordagem híbrida: É a escolha mais eficaz para quem apresenta o TDAH do tipo combinado.
Por fim, pesquisas de neuroimagem indicam que o próprio desenvolvimento do cérebro ao longo da vida é responsável por essas mudanças. Crianças cujos sintomas diminuem com o tempo mostram padrões de maturação cerebral diferentes daquelas que mantêm o quadro grave, provando que o cérebro continua a se adaptar durante o crescimento.