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Seletividade alimentar

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Em um prato infantil, uma mudança mínima, como a batata encostada no arroz, a cenoura cozida um pouco mais, o cheiro mais intenso do feijão ou a temperatura diferente da habitual, pode parecer irrelevante para um adulto. Para muitas crianças com transtorno do espectro autista (TEA), no entanto, esses detalhes são suficientes para transformar a refeição em uma experiência de desconforto, ansiedade e recusa. Em abril, mês de conscientização sobre o autismo, a seletividade alimentar surge como um dos desafios presentes na rotina das famílias.

Em festas, restaurantes ou até em um almoço em família, a alimentação do filho de 12 anos sempre foi um ponto de atenção para a empresária Wânia Compan. Mãe de Lucas, autista nível 2 de suporte, ela conta que por muito tempo acreditou estar diante de uma fase comum da infância, até perceber que, enquanto outras crianças aumentavam o repertório alimentar, o do filho se tornava cada vez mais restrito.

“No começo eu achava que era só uma fase, coisa de criança. Mas com o tempo fui percebendo que não evoluía como o esperado”, relata.

Wânia conta que, quando Lucas era mais novo, consumia uma quantidade de alimentos tão seleta que era possível contar nos dedos que comida ele aceitava. Segundo a mãe, a dificuldade persistente para experimentar novos sabores, somada à rigidez nas refeições, foi um dos primeiros sinais que despertaram o alerta para a investigação do transtorno.

Após entender que não se tratava apenas de preferência, Wânia decidiu procurar ajuda. Ela admite que demorou um pouco para buscar orientação, influenciada pelos comentários de que aquilo seria “normal”.

Hoje, a principal estratégia adotada pela família é respeitar o tempo da criança e retirar a pressão em torno da comida. A mãe conta que a insistência só agravava a ansiedade e a recusa. Aos poucos, passou a trabalhar a aproximação gradual com os alimentos.

Wânia explica que, em casa, pequenas estratégias passaram a fazer diferença, como deixar o alimento no prato mesmo que Lucas não coma e permitir que ele toque e cheire antes da prova.

Além do paladar

Para o neuropediatra Warllon Barcellos, colaborador do Coletivamente, a seletividade alimentar aparece com maior frequência entre crianças com TEA, pois, em muitos casos, integra o próprio perfil clínico e sensorial do transtorno, refletindo em alterações na forma como o cérebro processa textura, cheiro, temperatura e previsibilidade durante as refeições.

“A seletividade alimentar é muito mais frequente em crianças com TEA e não deve ser encarada como frescura. Muitas vezes, a criança vive aquilo como uma experiência genuinamente aversiva”, afirma.

Segundo ele, o cérebro da criança autista não responde aos alimentos apenas pelo gosto, mas pela forma como processa cada estímulo envolvido na experiência de comer.

“Textura, cheiro, temperatura, cor, formato e até pequenas alterações na apresentação podem ser interpretados como ameaça. A recusa não é voluntária, mas uma resposta neurobiológica de defesa”, explica o médico.

Barcellos destaca que alguma resistência a novidades pode ser esperada na infância, especialmente na fase de neofobia alimentar entre 18 e 24 meses. O sinal de alerta aparece quando há persistência, rigidez extrema e impacto funcional. Ele destaca que deixa de ser uma “fase” quando o crescimento, a participação social e a rotina escolar são comprometidos.

Na avaliação da nutricionista Karol Loren, o principal risco está na monotonia alimentar e na exclusão progressiva de grupos inteiros.

“Não é birra. É hipersensibilidade sensorial. Texturas, cheiros e temperaturas podem ser percebidos de forma muito intensa, e isso leva a uma dieta cada vez mais restrita”, afirma.

Ela explica que muitas crianças passam a aceitar apenas alimentos crocantes, recusam frutas e vegetais, preferem comidas frias ou se limitam a uma única marca de determinado produto, por exemplo. O problema é que esse padrão pode gerar deficiências importantes.

“Vemos casos de anemia ferropriva, constipação crônica, risco para a densidade óssea e até obesidade quando a preferência fica concentrada em ultraprocessados”, alerta.

Loren chama a atenção para sinais de alerta, como repertório alimentar restrito a menos de 15 ou 20 itens, exclusão persistente de grupos importantes, como proteínas, frutas e verduras, e refeições marcadas por tensão. Segundo a nutricionista, quando a comida deixa de ser um momento cotidiano e passa a gerar estresse para a criança e para a família, já há um indicativo claro de que é hora de buscar ajuda especializada.

Enquanto a medicina e a nutrição explicam o fenômeno, a gastronomia oferece ferramentas práticas para tornar a refeição mais atrativa. No projeto Amor em Cubos, voltado à alimentação de bebês e crianças na primeira infância, o chef Joca Mesquita transformou a seletividade em um dos pilares do desenvolvimento dos pratos.

“A criança é muito transparente. Não adianta dizer que está gostoso. Ela precisa ser conquistada pelo sabor, pelo aroma, pela textura e pelo visual do prato”, resume.

Uma das principais estratégias usadas é o preparo de bases aromáticas naturais, feitas a partir da redução lenta de tomate, cebola, alho e legumes. Ao serem assados ou cozidos por horas em fogo baixo, os ingredientes concentram o umami natural, intensificando o sabor sem recorrer a aditivos artificiais.

“Isso aumenta muito a chance de aceitação, porque a comida fica mais interessante para o paladar infantil”, explica.

Diferentes técnicas

Segundo ele, a familiaridade é um ponto-chave para a aceitação. Em vez de trocar constantemente os alimentos, a orientação é trabalhar diferentes técnicas de preparo com um mesmo ingrediente, permitindo que a criança se acostume gradualmente ao sabor, à textura e à aparência. O chef destaca que a estratégia aumenta as chances de a criança encontrar uma versão mais confortável daquele alimento, mantendo um elemento conhecido que reduz a estranheza diante do prato.

Na primeira infância, Mesquita também recomenda estratégias inspiradas no método BLW (Baby-Led Weaning), que estimula a autonomia do bebê no contato com a comida. Em vez de apresentar vegetais como cenoura, brócolis e couve-flor muito picados, ele orienta oferecer pedaços maiores, que possam ser segurados com as mãos.

O chef também enfatiza a importância de incluir os pequenos no preparo das refeições, em tarefas simples como amassar, descascar ou organizar ingredientes, já que essa participação ajuda a criar familiaridade, previsibilidade e vínculo com o alimento. Para ele, até mudanças sutis na apresentação, como um corte diferente ou cores mais vibrantes, podem transformar completamente a relação da criança com a comida e favorecer a aceitação.

FONTE: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/04/26/autismo-por-que-a-seletividade-alimentar-nao-e-apenas-frescura-saiba-como-lidar.ghtml

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