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Sintoma isolado, o perigo

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O transtorno de déficit de atenção, com ou sem hiperatividade, é um transtorno do neurodesenvolvimento em que os sintomas mais conhecidos são: desatenção, impulsividade, hiperatividade, agitação motora ou de pensamento e desorganização. Mas um sintoma isolado não caracteriza TDAH, por isso, é muito importante que o indivíduo que apresente essas características busque ajuda profissional e seja submetido a uma avaliação neuropsicológica para rastreio de diagnóstico.

Além disso, em geral quem tem TDAH apresenta sintomas que precisam ser tratados durante toda a vida. Nos casos de diagnóstico tardio, a equipe multidisciplinar coleta, através de uma extensa anamnese,  o histórico da infância e da adolescência, além de investigar o nível de comprometimento em áreas sociais, acadêmicas e profissionais.

Um transtorno é um conjunto de sintomas e características que, de fato, trazem sofrimento, incômodo e prejudicam diretamente a qualidade de vida de uma pessoa. Devido às oscilações de humor, raciocínio e comportamento, esses sinais no neurodesenvolvimento, quando combinados, afetam também a autonomia, independência e o estado de saúde físico, psicológico e emocional.

São diversos os prejuízos apresentados por pessoas que têm TDAH, e eles comprometem várias fases da vida: escolar, social, profissional, familiar e relacionamentos amorosos. Muitas pessoas também podem desenvolver comorbidades associadas, como ansiedade e depressão. 

Dificuldades paralelas

A dificuldade de concentração, de controlar os impulsos e de manter a organização mental e espacial faz com que os sintomas do paciente interfiram diretamente nos momentos em que são necessários manter uma conversa mais longa, participar de atividades em grupos, prestar atenção em aulas e  seguir regras sociais. Assim, quem tem TDAH pode ser visto como ‘mal educado’, desinteressado e com baixa tolerância à frustração.

Quando falamos de crianças, os sintomas não são muito diferentes, mas se manifestam de outras formas e trazem prejuízos em áreas específicas, como na aprendizagem, trocas entre coleguinhas da mesma idade e participação de atividades e jogos (ou a criança é muito boa nas propostas ou apresenta dificuldade na execução), o que acaba impactando também o desenvolvimento da autoestima. Por isso, os cuidados nessa fase devem ser redobrados.

Ainda assim, como nem todo sinal que aparece durante a infância pode ser suficiente para o diagnóstico de TDAH, faz-se necessário acompanhamento multidisciplinar. “Uma criança que é muito agitada não pode automaticamente ser “rotulada” com TDAH, pois deve-se levar em consideração o primeiro fator de que ela é uma criança em desenvolvimento, e como toda criança, tem energia e precisa de regras e orientações para ambientes controlados, como escola e salas de aulas”, explica a professora e doutora Marina Zotesso, psicóloga comportamental com mestrado e doutorado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora na área do autismo e transtornos de aprendizagem e desenvolvimento.

Manuais também são importantes

Além dos sintomas citados acima, a psicóloga explica que o diagnóstico de TDAH pode se basear em manuais de saúde como CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) e DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

”Vale ressaltar que o TDAH é um dos transtornos mais banalizados na atualidade, ou seja, diagnósticos são feitos erroneamente, seja por profissionais ou até mesmo por conta do autodiagnóstico. A condição a qual engloba-se o TDAH é extremamente séria, e não deve ser confundida com preguiça, desânimo momentâneo ou distração em função de estímulos concorrentes”, completa Marina.

É por conta disso que a avaliação neuropsicológica aplicada a esses casos é tão intensa, e conta com testes clínicos, atividades e entrevistas que avaliam: aptidões e funções executivas, memória, coordenação motora, comunicação verbal, atenção, raciocínio, velocidade de processamento, resolução de problemas, aspectos emocionais relacionados à ansiedade e depressão, entre outros. 

“O diagnóstico é clínico (não é feito com base em exames de imagens ou laboratoriais), realizado por meio de avaliações médicas, educacionais e psicológicas. Um conjunto de sintomas característicos do TDAH deve ser identificado no indivíduo em questão, porém, pelo período maior de seis meses de permanência”, conclui Marina Zotesso.

Tratamento duradouro

Por não se tratar de uma doença e sim de um transtorno relacionado ao funcionamento do cérebro, o déficit de atenção não tem cura, mas tem tratamento que precisa de seriedade e constância. Essas intervenções podem ser clínicas (através de terapias comportamentais ou acompanhamento com equipe multidisciplinar, a depender do caso – somando psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos), químicas (com medicamentos que ajudam a inibir sintomas como desatenção e impulsividade que impactam na qualidade de vida do paciente) ou combinadas (terapias aliadas aos medicamentos).

Mas, atenção, cada pessoa é única, mesmo que compartilhe características, por isso é importante que o acompanhamento profissional seja individualizado. “O diagnóstico não deve ser feito de forma leviana, mas analisando caso a caso, com cautela, a fim de que as pessoas não sejam diagnosticadas e medicadas erroneamente, afinal cada indivíduo é único e deve-se levar em consideração tais variações de comportamento, e não querer padronizar todos dentro de um mesmo modelo tido como ideal”, enfatiza Zotesso. 

Viralização nas redes sociais

Infelizmente, sabemos que nem tudo que existe na internet faz bem para a saúde mental e para o nosso autoconhecimento. Em um mundo cada vez mais tecnológico, em que influenciadores digitais se fazem presente mostrando suas rotinas e que a cada dia aparece uma tendência diferente entre os jovens nas redes sociais, é preciso cautela, respeito e conscientização nos conteúdos.

Nos últimos meses, diversos memes e vídeos viralizaram em aplicativos como Twitter e TikTok com assuntos relacionados ao TDAH, banalizando os sintomas e expondo as características em tom de piadas. 

Usar os sintomas de um transtorno para brincadeiras que confundem, ofendem e banalizam quem realmente vive com aquela condição não é a forma ideal de usarmos a internet para disseminar informações que realmente podem fazer a diferença na vida de alguém.

Só quem tem problemas e enfrenta desafios diários relacionados ao TDAH sabe que ser ridicularizado é uma questão muito séria, que envolve também a saúde mental.

“As pessoas confundem muito o fato de estarem cansadas e tristes com depressão. E o mesmo vale para o TDAH. Não é porque uma pessoa está desfocada, desatenta ou mais ativa em determinado momento que ela tenha o transtorno. A internet virou um lugar onde a gente se expõe muito, mas nem tudo que a gente expõe deve ser analisado dessa forma, e por isso, não devemos banalizar ou fazer um autodiagnóstico sem levar em conta a seriedade dos transtorno mentais e de neurodesenvolvimento, e também o papel dos profissionais de psicologia”, alerta Marina.

Capacitismo é o termo usado para a discriminação de pessoas com deficiência ou transtorno relacionados ao neurodesenvolvimento. Somos capacitistas quando julgamos essas pessoas como menos capazes e até mesmo inferiores.

Nada de se inferiorizar

Um diagnóstico, seja ele qual for, não torna a pessoa incapaz de ter autonomia e independência. Apesar de existirem limitações específicas relacionadas às condições de cada indivíduo, ter TDAH não inferioriza o indivíduo, seja ele adulto ou criança.

É por isso que falar de conscientização e inclusão na atualidade é cada vez mais necessário, pois quando compreendemos as complexidades existentes, é possível elaborar estratégias de adaptação para as atividades que precisam ser executadas no dia a dia.

Por exemplo, no caso de crianças e adolescentes em processo de aprendizagem, em vez de insistir no material que não traz compreensão e absorção daquele conhecimento, familiares, professores e equipe multidisciplinar podem elaborar outros recursos que facilitem os estudos.

“É de extrema importância que as pessoas com TDAH ou pais e responsáveis por crianças nessa condição encontrem a melhor forma e modelo de estudos/leituras, pois adaptações devem ser feitas e podem favorecer imensamente o aprendizado”, conclui Marina Zotesso.

Essa dica também vale para empresas que, ao saberem quais adaptações são necessárias para um melhor rendimento daquele colaborador, prestam auxílio e oferecem os recursos necessários para o desenvolvimento profissional e o bem-estar do funcionário. 

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/neurologia/toda-desatencao-e-sintoma-de-tdah/

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