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Cecília Laval tem TDAH. Para ela, conviver com o transtorno é como subir uma escada rolante que está descendo, enquanto os outros sobem a que vai no sentido correto. Ela pode se esforçar, se superar, dar o seu melhor. Mesmo assim, nunca vai alcançar seus objetivos com a mesma facilidade que o restante das pessoas.

De forma simplificada, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade causa sintomas como falta de atenção, inquietação e impulsividade. Na prática, é a pessoa que os outros dizem que “não para quieta”, “vive no mundo da lua” ou “não consegue aprender”. Só que ser constantemente rotulada dessa forma tem graves consequências para a autoestima.

O TDAH é um transtorno neurobiológico de causas genéticas que aparece ainda na infância. Segundo o dr. Daniel Segenreich, professor adjunto do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro, existem dois subtipos principais do quadro:

“Há crianças e adolescentes que são bastante agitados e inquietos. Muitas vezes, eles também têm um transtorno disruptivo de comportamento, de oposição ao desafio. Nesse sentido, são crianças muito demandantes e de difícil convívio, então as outras acabam se afastando”, explica o psiquiatra. “E tem crianças cuja apresentação clínica é mais de desatenção. Elas são quietas, mas muito desatentas. E acabam tendo prejuízos também, porque se não estão atentas ao que é dito, a sensação é de que estão ‘voando’. Assim, elas não conseguem criar uma conexão profunda com quem conversam”, continua o especialista.

No caso de Cecília, a desatenção era o seu maior problema. Desde pequena, ela sofria com a dificuldade para aprender. “Várias vezes, a minha mãe chegava na escola e eu estava chorando na classe, porque não tinha conseguido terminar de copiar a matéria do quadro. Todo mundo tinha ido embora e só eu estava lá”, lembra.

Nos anos iniciais da escola, a família ajudava. Depois, quando começaram os trabalhos em grupo, Cecília passou a perceber que precisava de muita ajuda dos seus colegas. Normalmente, eles faziam tudo, e quando ela tentava fazer sozinha, o resultado era muito aquém do que gostaria. “Mas comecei a optar por fazer sozinha mesmo. Preferia mal feito do que achar que as outras pessoas estavam fazendo por mim”, relata.

Dificuldades na fase adulta

De acordo com o dr. Daniel, quando o TDAH não é diagnosticado e tratado ainda na infância ou adolescência, é provável que a pessoa chegue à fase adulta com dificuldades crescentes na socialização e aprendizado. “No caso do adulto, isso chama ainda mais a atenção. Se você tem muita desatenção e impulsividade, acaba passando uma ideia de descompromisso e falta de educação”, detalha.

Em relação à performance acadêmica e profissional, o TDAH também provoca estragos. 

“A primeira faculdade que eu fiz foi Letras, e eu ‘rodei’ em todas as matérias no primeiro semestre. Porque, simplesmente, era difícil demais. Então eu abandonava a classe e ia, sei lá, jogar cartas no refeitório da faculdade. Se eu soubesse e tivesse tido um tratamento precoce, eu teria conseguido terminar essa graduação”, conta Cecília. O diagnóstico só veio aos 38 anos, quando ela procurou ajuda psicológica por causa de outros problemas.

Nesse momento, palavras como “incapaz”, “incompetente” e “burro(a)” começam a preencher a mente de quem tem TDAH. Passar de ano com boas notas, prestar vestibular e entrar na faculdade dos sonhos são os parâmetros de sucesso para a criança e o adolescente nos dias de hoje.

“Se você tem dificuldade em relação a isso e não sabe que é um transtorno, você começa a atribuir à sua forma de ser ou ao seu nível de inteligência, como se fosse algo imutável”, destaca o dr. Daniel.

Compensação

No caso da escritora Thalita Saldanha, que também descobriu o diagnóstico de TDAH depois dos 30 anos, o problema se intensificou justamente após o seu doutorado. Durante a infância, ela sempre fora uma ótima aluna, mas percebia certa dificuldade para se concentrar e uma hiperatividade mental. No entanto, “compensava” esses sintomas com uma dedicação extrema — que ela também vê como uma ansiedade para dar conta de tudo o que precisava.

“A vida acadêmica é pesada no sentido de cobranças. Mas eu saí do meu doutorado pior do que eu imaginava. Eu estava tendo várias crises que pareciam depressão profunda”, relata Thalita.

O que a fez desconfiar de TDAH foi a falta de foco. Muitas vezes, ela começava a fazer café e, dali a meia hora, se pegava fazendo uma atividade completamente diferente de forma inconsciente e sem ter terminado o café. Ao mesmo tempo, se sentia bastante desgastada, com pouquíssima energia. Naquele ritmo, Thalita dizia ter a certeza de que iria morrer cedo.

Atividades que exigem concentração

Atualmente, a sociedade tem uma predileção por atividades que exijam concentração com foco único de atenção. Por isso, quanto mais concentrado você é, melhor a performance nos resultados. A partir do momento em que o indivíduo sofre com problemas de atenção, ele começa a achar que deveria ser diferente, especialmente se não souber que tem TDAH.

“No momento em que ele tem contato com resultados ruins, começa a ter influências negativas sobre si mesmo. Tem jovens que escutam dos outros que são pouco comprometidos, que não são confiáveis, que são bagunceiros. Você começa a escutar esse tipo de crítica e acredita que faz parte da sua forma de ser, da sua personalidade. Isso joga a autoestima lá embaixo”, afirma o dr. Daniel.

Cecília conta que se sentia sempre atrás de todos e, por isso, passou a se tratar com bastante desprezo. Em várias ocasiões, abandonava os seus objetivos por não se sentir capaz de conquistá-los ou se afastava de amigos queridos por achar que seria melhor para eles.

Thalita, por sua vez, desenvolveu a constante sensação de que as pessoas a rejeitavam a todo momento. Isso acontece porque pessoas com TDAH têm mais dificuldade de controlar as emoções, sejam elas boas ou ruins.

Círculo vicioso

O problema se agrava ainda mais por dar início a um círculo vicioso. O medo de parecer inconveniente aos olhos dos outros e a falta de energia para lidar com a situação em meio ao turbilhão de pensamentos de quem tem TDAH costumam levar ao isolamento.

“Esse isolamento só vai piorar a sensação, porque quanto mais a pessoa se isola, mais ela tem dificuldade de se colocar no mundo e menos é chamada pelos outros. Isso vai se confirmando e criando um viés negativo na cabeça dela”, alerta o psiquiatra.

O primeiro passo para melhorar a autoestima é tratar o transtorno. Trabalhando os sintomas do TDAH, através de medicamentos e psicoterapia, o indivíduo entende que é tão capaz quanto os outros. “Os resultados passam a ser melhores em várias questões, como acadêmicas, profissionais e sociais, e você passa a ter outra autopercepção”, ressalta o especialista.

Cecília, hoje, é formada em Música e adota o nome artístico de Cissa Laval. Ela afirma que o tratamento a ajudou a ser mais gentil consigo mesma. “Quando eu acho que estou sendo inconveniente e devo me afastar dessa pessoa, eu consigo parar para pensar. ‘Não, essa é quem eu sou. Se a pessoa está aqui comigo é porque ela quer.’ O remédio me ajudou muito nesse processo. Eu consigo parar para pensar, porque o meu cérebro está calmo, não está pensando mil coisas ao mesmo tempo”, diz.

Para Thalita, o tratamento proporcionou uma vida mais leve. “A sensação que eu tenho é que antes do diagnóstico e da medicação, eu vivia no modo hard [difícil] sem saber que estava nele ou que sequer existia outro modo. Depois, parece que fui para um modo médio. Não é easy [fácil] ainda, mas um nível médio de dificuldade”, ilustra, fazendo alusão a um jogo de videogame.

A escritora, que teve um livro indicado ao Prêmio Jabuti em 2021, avalia que conquistou muitas coisas antes de saber que tinha TDAH. No entanto, vê o diagnóstico como um divisor de águas. “A gente acha que o tratamento não impacta. ‘Eu já construí muito, já fiz muito.’ Realmente, eu fiz muito sem o diagnóstico e medicação, mas o quanto isso me custou? O quão mais fácil poderia ter sido se eu soubesse, se eu conseguisse ter começado esse tratamento antes?”, reflete.

Ao perceber sintomas como dificuldade de prestar atenção em tarefas, distração constante, dificuldade em esperar a sua vez de falar, agitação física e mental, entre outros, procure a orientação de um psicólogo ou psiquiatra.

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/como-o-tdah-afeta-a-autoestima/

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