“Você gostou do presente?”. Essa é uma pergunta que já fiz ao meu filho algumas vezes. A resposta quase sempre era a mesma:
“Gostei.”
Mas, como mãe, eu esperava outra reação. Um sorriso, um abraço, aquela empolgação que normalmente associamos à felicidade. Com o tempo, comecei a perceber que, para o Filipe, a emoção nem sempre se manifestava no mesmo instante em que acontecia.
Horas depois, ou até no dia seguinte, ele voltava ao assunto.
“Mãe, eu amei aquele presente”.
Foi convivendo com ele que compreendi algo importante: nem toda emoção aparece da forma ou no tempo que esperamos.
Essa percepção me levou a conhecer um tema ainda pouco discutido: a alexitimia.
A alexitimia não é um diagnóstico e nem está presente em todas as pessoas autistas. Trata-se de uma dificuldade para identificar, compreender e expressar as próprias emoções. Em outras palavras, a pessoa sente, mas pode encontrar dificuldade para reconhecer exatamente o que está sentindo e transformar essa experiência em palavras ou demonstrações.
Conhecer esse conceito não explicou todos os comportamentos do Filipe. O autismo é muito mais complexo do que qualquer definição. Mas compreender a alexitimia me ajudou a interpretar muitas situações que, até então, eu enxergava de outra forma.
Passei a perceber que isso acontecia em diferentes momentos da nossa rotina.
Com os presentes, as viagens, no aniversário ou quando recebia um elogio por uma boa nota na escola.
Reação aparecia horas depois
A reação que eu esperava nem sempre acontecia naquele instante. Muitas vezes, ela aparecia horas depois ou até no dia seguinte, quando tudo aquilo já havia sido processado.
O mesmo acontece com o afeto.
Há dias em que o Filipe acorda procurando abraço, beijo e proximidade. Está mais comunicativo, mais brincalhão e faz questão do contato físico.
Mas há outros dias em que, principalmente depois da escola ou de um período de muitos estímulos, o abraço simplesmente não acontece.
Não porque deixou de amar ou porque rejeita o carinho. Apenas aquele não é o momento.
E foi justamente isso que aprendi: nem sempre devemos interpretar um comportamento sem considerar o contexto em que ele acontece.
Também aprendi outra coisa: às vezes somos nós que oferecemos um abraço e ele não corresponde. Em outras, somos nós que estamos ocupados, cansados ou distraídos, e é justamente naquele momento que ele vem espontaneamente nos abraçar.
Isso me fez perceber que o afeto também tem o seu tempo. E que compreender esse tempo faz parte da relação.
Nós, adultos, costumamos esperar que as emoções apareçam imediatamente. Esperamos o sorriso quando o presente é entregue, a comemoração quando a nota boa chega ou a empolgação ao iniciar uma viagem.
Mas algumas pessoas demonstram o que sentem de outra forma.
No caso do Filipe, muitas vezes a demonstração aparece na continuidade. No brinquedo que passa a fazer parte da rotina. Na roupa que ele escolhe vestir repetidas vezes. Ou em uma frase simples, dita horas depois:
“Mãe, eu gostei muito.”
Foi convivendo com ele que percebi que nem sempre a intensidade de uma emoção pode ser medida pela intensidade da reação.
Mais tempo para compreender
Algumas pessoas sorriem, pulam e comemoram. Outras precisam de mais tempo para compreender aquilo que sentiram antes de conseguir demonstrar.
Compreender a alexitimia amplia nosso olhar não apenas sobre o autismo, mas sobre o comportamento humano.
Ela nos lembra que sentir e conseguir expressar o que se sente são habilidades diferentes. E talvez esse seja um dos maiores aprendizados que a maternidade atípica me trouxe.
Antes de concluir que alguém é frio, distante ou indiferente, vale a pena fazer uma pausa.
Nem toda emoção aparece na hora. Nem todo afeto é demonstrado da forma que esperamos.
Às vezes, ele está presente em um gesto que vem mais tarde, em um comportamento que se repete ao longo dos dias ou em uma frase simples dita quando a emoção finalmente encontrou palavras.
Quando deixamos de julgar a reação imediata e passamos a observar a pessoa por inteiro, ampliamos nossa capacidade de compreender, acolher e construir relações mais humanas.
Para mim, uma das maiores contribuições da alexitimia é lembrar que, por trás de um comportamento que não entendemos, pode existir uma emoção que apenas precisou de mais tempo para aparecer.