“Grava um vídeo para mim”? – e não vem buscar.
“Escreve um capítulo para meu livro”? – e não publica.
“Quero você no meu evento” – quando você vê, o evento saiu e você não estava lá.
Acontece comigo.
Já aprendi a lidar. Entendi que o mundo está cheio de pessoas que falam “da boca pra fora”. Que isso não é legal, mas aceitável pela maioria das pessoas.
Mas durante a vida toda sofri com leviandade de quem diz coisas por entusiasmo do momento, ou que, muitas vezes, já sabe que não vai cumprir.
Pessoas autistas costumam gostar de previsibilidade, de compromissos que são mantidos e até cancelamentos com antecedência.
Saber o que vai acontecer nos próximos dias/semanas traz segurança para muitas pessoas dentro do espectro. Para muita gente isso é uma chatice – saber o que vai acontecer; para outras, é necessário para que ela não fique ansiosa demais e consiga organizar seu tempo de modo produtivo.
Viver com autismo em uma sociedade caótica como a brasileira, é um dos obstáculos que as pessoas enfrentam.
Parece que muitos neurotipicos não se importam em descumprir acordos, cancelar compromissos de última hora ou voltar atrás na palavra.
A facilidade com a qual muitas pessoas descumprem o combinado, se atrasam demais, e nem aparecem para se desculpar, ainda me choca. O problema é meu, eu sei.
Já me irritei com a falta de responsabilidade de muita gente. Graças a Deus, tem as pessoas que realmente cumprem o combinado – as que mais admiro, sigo trabalhando e apoiando.
Hoje, entendo como um fato generalizado de quem não está nem aí para o outro. O problema era eu manter meu senso de responsabilidade sem ter que agir de forma igualmente leviana.
Não é porque todo mundo faz algo errado que eu vou fazer para pertencer. Sempre encontro minha turma.
Palavras ao vento não fazem bem para ninguém, certamente para pessoas responsáveis como muitos autistas costumam ser.
“Afspraak is afspraak” (Um acordo é acordo), como dizem os holandeses.
Ser autista no Brasil é um desafio em 3D.