20/06 | 2 anos de Coletivamente

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É crise, não é birra!

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“A gente sabe distinguir uma crise de uma birra”, diz Flávia Caloni, vice-presidente da AMA (Associação dos Pais e Amigos do Autista). O problema, segundo ela, é que a sociedade ainda não. O preconceito se manifesta de várias formas, mas para Flávia, que é mãe de João Guilherme, um menino autista, hoje com 15 anos, o que mais dói são os olhares, que trazem consigo a pesada carga do julgamento. E não para por aí. Flávia afirma que, dentro desse universo, os adolescentes e adultos autistas estão esquecidos e, no caso deles, a exclusão se manifesta com muita frequência. A psicóloga Cidinha Veiga que tem 30 anos de experiência nessa área confirma: “Eles são constrangidos o tempo todo”.

A especialista explica que é ainda mais complicado para o autista com nível de suporte 1. “Como ele não tem comprometimento intelectual, e ele percebe tudo o que se passa ao seu redor, ele percebe que ele é diferente e isso gera muita angústia”, explica.

O entendimento de que pessoas portadoras de TEA (Transtorno do Espectro Autista) têm peculiaridades, gostos e sensibilidades sensoriais é essencial para que haja acolhimento e respeito. Por isso, a comunidade onde o autista está inserido precisa conhecer essas características, esse é um passo importante no caminho da inclusão. “O diferente, a gente compreende e respeita. Não queiram fazê-lo igual aos outros”, completa Cidinha.

Não é doença

Ainda sem estatísticas no Brasil, o autismo não é considerado uma doença, mas necessita de levantamentos para que haja evolução e desenvolvimento para garantir mais direitos aos portadores dessa condição neurológica. A Associação de Pais e Amigos do Autista de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, uma referência no atendimento às famílias, em funcionamento há 34 anos, foi o local que acolheu uma mãe aflita e perdida, sem um diagnóstico para o filho. Foi assim que começou a história de Flávia Caloni com a AMA, 12 anos atrás.

Flávia conta que já tinha percebido que o comportamento de João era diferente, procurou vários médicos e psicólogos em Campo Grande mas nenhum fechou o diagnóstico para o autismo. “Teve um médico que chegou a me dizer para que eu ficasse tranquila, pois ele iria dar um remedinho e o meu filho iaa soltar as palavrinhas”, lembra.

“O que tenho com a AMA é uma dívida de gratidão”, afirma Flávia, que teve de sair de Mato Grosso do Sul para conseguir obter o diagnóstico para o filho. Só depois de conseguir um laudo com o médico e pesquisador José Salomão Schwartzman, uma referência nos estudos sobre autismo no Brasil, é que médicos e psicólogos de Campo Grande fecharam o diagnóstico.

“Pai e mãe têm que pecar pelo excesso. Se existe alguma suspeita, se você observou algum comportamento diferente no filho, vá em busca de ajuda”, alerta Flávia, que se tornou vice-presidente da associação.

João Guilherme agora é um adolescente, e a família o ajuda a superar os obstáculos que surgem nessa fase.

Impacto do diagnóstico

A história de Flávia e do filho João ilustra bem o impacto que um diagnóstico de TEA provoca em uma família. A psicóloga Aparecida Veiga, que atende na AMA, reforça a importância do diagnóstico precoce.

O transtorno do espectro autista, que é a nomenclatura atual, é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta principalmente a comunicação, a interação social, em padrões restritos e repetitivos de comportamento.

Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores chances a criança tem de se desenvolver com as terapias e os acompanhamentos oferecidos. “Há possibilidade de que um autista de nível suporte 2 passe a ser nível suporte 1 com as terapias”, explica a psicóloga.

Cordão de girassol

“Autismo não tem cara. O cordão do girassol veio para dar visibilidade para essa condição especial”, diz a vice-presidente da AMA, ao se referir ao cordão do girassol, o acessório que os autistas podem usar no pescoço como identificador. Para quem vive essa realidade, o cordão foi uma grande conquista, resultado da luta das mães por reconhecimento social.

“A cada 36 nascimentos, um nasce autista. Hoje, e cada vez mais, nós vamos nos deparar com pessoas com deficiência e a sociedade precisa estar preparada para isso”, reforça Flávia.

A AMA foi fundada em 26 de abril de 1990 por um grupo de acadêmicos de psicologia da FUCMT (Faculdade Unidas Católicas de Mato Grosso) e, hoje, atende a mais de 135 pacientes. Entre os serviços que oferece estão o atendimento educacional especializado, psicologia, fonoaudiologia, entre outros.

FONTE: https://www.campograndenews.com.br/podcast/na-integra/nao-e-birra-e-crise-entender-o-autismo-e-o-caminho-para-a-inclusao

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