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Jovens autistas num 3 estrelas

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Lara Gilmore e Massimo Bottura têm uma inquietude semelhante. Ele é o chef a transbordar de ideias, de gestos largos e cabelos em desalinho, que fala sem parar, como bom italiano, e parece procurar sempre um objeto para o qual canalizar a sua inesgotável energia. Ela, a norte-americana que casou com ele em 1995 e que está ao seu lado no grande projeto que é hoje a Francescana Family (com todos os projetos que cabem lá dentro), é mais contida na gestualidade, mas tem a mesma intensidade criativa, a mesma ânsia de fazer acontecer – e de mudar o mundo, sem forçar, à medida que ele se presta a ser mudado.

Com a sua coleção de arte e a sua coleção de carros de corrida, muitos deles Ferraris (slow food, fast cars é o lema aqui), a comida extraordinária e o acolhimento informal, a Casa Maria Luigia (três estrelas Michelin), a propriedade que têm nos arredores de Modena, tornou-se o epicentro de tudo isto. “Eu e o Massimo nunca fomos de fazer planos a cinco anos ou a dez anos”, explica Lara, enquanto guia o carro em direção a Modena.

“Temos muita consciência de como o mundo muda à nossa volta e a Casa Maria Luigia ajuda-nos a focar-nos na próxima coisa que precisamos fazer e onde precisamos de estar”, diz. “Não fazemos estratégias nem folhas de Excel, somos muito espontâneos, o que é bom e mau, mas somos bastante intuitivos e, como somos hiperativos, queremos sempre fazer algo novo para manter a nossa energia em ação, para não nos sentirmos aborrecidos e garantir que continuamos a crescer enquanto pessoas”.

Tinham a Osteria Francescana (abriu em 1995) e Massimo “sonhava ter uma estrela”. Quando conseguiu ter três, pensaram o que queria fazer com elas. “Queremos usá-las como uma força de mudança, como uma voz.” Em 2015 lançaram os Refeitórios Food for Soul, para dar comida a quem necessita (hoje são 13 Refeitórios em nove países), e em 2016 criaram o projeto Tortellante, que Lara me leva agora a conhecer.

No dia em que visitamos, o espaço está aberto para quem quiser comer os deliciosos tortellini mas os jovens que habitualmente aqui trabalham estão de folga. Entre eles, todos com algum nível de autismo, costuma estar Charlie, o filho de Lara e Massimo. Foi a mãe de outro rapaz com a mesma condição que um dia disse a Lara que o filho gostava muito de ajudar a avó a fazer pasta, uma atividade que obriga à concentração e implica destreza manual. A partir daí nasceu o Tortellante, onde voluntários ajudam no que for necessário e os jovens com autismo fazem os tortellini. “Normalmente, o Charlie vem aos sábados mas hoje não está”, diz Laura, convidando-me a sentar e pedindo um prato de tortellini com molho de queijo para que os possamos provar.

São cerca de 40 os jovens envolvidos no projecto. “Alguns vêm de manhã, outros de tarde. O Charlie trabalha aqui cinco dias por semana, outros trabalham dois, ou quatro, depende daquilo que precisam ou querem”, conta Lara. “Não tínhamos ideia de como isto podia ser terapêutico para eles, mas é incrivelmente terapêutico.” No final do dia, levavam os tortellini para casa para o jantar da família. “Isso cria uma ligação emocional incrível. Os miúdos percebem que são importantes, que são os protagonistas daquele jantar, porque foram eles que o fizeram”.

FONTE: https://www.publico.pt/2026/07/19/fugas/reportagem/tortellante-onde-jovens-autismo-fazem-tortellini-2181509

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