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Alerta para diagnóstico

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A importância de identificar precocemente sinais do TEA (Transtorno do Espectro Autista), sem transformar características isoladas em diagnóstico, foi destacada pela neurologista Cristiane Duarte Santos durante palestra promovida pela Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Piracicaba, na terça-feira no dia 18 de agosto. Especialista em neurologia adulta e infantil, ela abordou os critérios para diagnóstico, as formas de manifestação do transtorno ao longo da vida, os fatores de risco, os tratamentos e os mitos relacionados ao autismo.

Cristiane definiu o TEA como uma condição do desenvolvimento neurológico caracterizada por alterações na comunicação e na interação social e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. O diagnóstico, explicou a palestrante, é clínico e deve considerar os critérios estabelecidos pelo DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

A neurologista chamou a atenção especialmente para o diagnóstico diferencial. Segundo ela, características associadas ao autismo também podem aparecer em outras condições e até em crianças com desenvolvimento típico. Estereotipias e dificuldades de interação social, por exemplo, podem estar presentes em casos de deficiência intelectual ou TDAH sem que a pessoa necessariamente tenha TEA.

“Temos que ter muito cuidado”, afirmou Cristiane, ao comentar que tem observado diagnósticos equivocados. Para ela, tão importante quanto reconhecer o transtorno precocemente é verificar se os sinais não são mais bem explicados por outras condições. Os sintomas relacionados ao TEA devem estar presentes desde as primeiras etapas do desenvolvimento, ainda que se tornem mais evidentes posteriormente.

Entre os sinais de alerta na primeira infância, a especialista citou pouco contato visual, baixa interação, pouco sorriso social, ausência de resposta quando a criança é chamada, atraso na comunicação e falta de atenção compartilhada. Movimentos repetitivos e interesses restritos, como permanecer por longos períodos observando objetos que giram, também podem chamar a atenção. Ela ressaltou, no entanto, que nenhuma dessas características, isoladamente, permite concluir pela existência do transtorno.

Cristiane também detalhou manifestações que podem surgir, ao longo da vida adulta, na comunicação e na interação social, como dificuldade para iniciar e sustentar conversas, compreensão limitada de ironias e palavras de duplo sentido e dificuldade para perceber intenções do outro. Na dimensão comportamental, abordou interesses restritos, hiperfocos, uso não funcional de objetos, seletividade alimentar e alterações sensoriais.

A médica ressaltou que agitação, irritabilidade, agressividade e crises de comportamento não constituem, por si só, critérios para o diagnóstico. Em pessoas autistas, essas reações podem decorrer de dificuldades de comunicação, alterações sensoriais ou mudanças de ambiente e rotina. “Isso não é característica de autista, não é critério do DSM-5 para a gente fechar diagnóstico”, pontuou.

Em sua apresentação, Cristiane também abordou pessoas que chegam à vida adulta sem diagnóstico, situação observada pela neurologista principalmente entre mulheres. Segundo ela, algumas passam a infância e a adolescência sem atraso evidente da fala, mas apresentam dificuldades persistentes de interação que repercutem posteriormente nos relacionamentos, no trabalho e na vida social.

“Vejo vários adultos que eu faço diagnóstico com TEA, principalmente mulheres, o quanto de sofrimento que essa pessoa teve a vida toda”, relatou. Mesmo pessoas com altas habilidades ou elevado quociente de inteligência podem enfrentar dificuldades significativas decorrentes do transtorno. Por isso, a neurologista ponderou sobre o uso da expressão “autismo leve” para definir pessoas classificadas no nível 1 de suporte: “Leve para quem?”.

Ao apresentar dados epidemiológicos, Cristiane citou levantamento do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), divulgado em 2025, que apontou prevalência de TEA em uma a cada 31 crianças avaliadas. A médica também mencionou maior ocorrência de diagnósticos entre meninos do que meninas.

Entre os fatores associados ao transtorno, foram abordados aspectos genéticos e ambientais. Cristiane explicou que a presença de autismo nos filhos não pressupõe necessariamente que o pai ou a mãe também tenham o transtorno, já que podem ocorrer mutações genéticas durante a formação do bebê. A investigação genética, acrescentou, ganha importância em situações como recorrência de TEA na família, epilepsia associada, deficiência intelectual, consanguinidade e determinadas alterações físicas.

Cristiane destacou a importância de reconhecer sinais de alerta nos primeiros anos de vida para que a criança possa ser acompanhada e estimulada precocemente. Segundo ela, a intervenção nesse período aproveita a maior plasticidade cerebral e pode modificar a trajetória do desenvolvimento.

O tratamento, explicou, deve ser individualizado e pode envolver diferentes profissionais, como terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e especialistas em psicomotricidade. A participação da família também foi apontada como fundamental, especialmente diante das dificuldades de acesso à quantidade necessária de horas de terapia tanto na rede pública quanto por convênios. De acordo com a neurologista, os familiares precisam compreender as estratégias utilizadas pelos profissionais para que o estímulo não fique restrito ao período das sessões terapêuticas.

Ao final da palestra, Cristiane contestou algumas ideias disseminadas sobre o transtorno. Entre elas, estão as afirmações de que toda pessoa autista tem inteligência acima da média, de que quem fala bem não pode ter autismo, de que indivíduos com TEA não possuem emoções ou empatia e de que todos os autistas apresentam talentos extraordinários.

A neurologista reforçou a necessidade de equilíbrio entre a busca pelo diagnóstico precoce e o cuidado para evitar avaliações equivocadas. Também alertou para conteúdos divulgados nas redes sociais e para promessas de tratamentos e terapias sem respaldo adequado. “Até um tempo atrás, a gente tinha muito cuidado em tentar fazer o diagnóstico o mais cedo possível. Houve uma mudança e hoje temos que ter muito cuidado também nos diagnósticos diferenciais e em não dar diagnóstico errôneo”, afirmou, recomendando “cuidado com as mídias sociais e com as falsas promessas na internet de tratamento, de terapias”.

Aberta pelo vereador Pedro Kawai (PSDB), que é o diretor da Escola do Legislativo, a atividade desta terça-feira foi a primeira das seis que compõem o ciclo de palestras “Conhecer para cuidar: caminhos da Apae”, que o órgão educativo da Câmara promoverá quinzenalmente, até 27 de outubro, sempre com transmissão ao vivo pelo canal oficial no YouTube. Os encontros têm inscrição gratuita e acontecem em parceria com a Apae Piracicaba.

Respectivamente gestora e assistente social na entidade, Beatriz Flores da Silva Pereira e Mara Prezotto antecederam a apresentação de Cristiane e falaram do trabalho desenvolvido pela instituição no município e da importância do decreto 12.773/2025, que, segundo Beatriz, corrigiu falhas do decreto anterior, 12.686, e reforçou “a inclusão responsável, que
respeita as diferenças individuais, e a pluralidade de modelos educacionais”.

FONTE:https://www.camarapiracicaba.sp.gov.br/neurologista-cita-importancia-de-identificar-precocemente-sinais-do-autismo-71937

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