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O medo de não caber no mundo

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Existe um momento silencioso na vida das famílias atípicas em que o futuro começa a assustar.

Ele chega devagar, quase sem avisar. Surge quando percebemos que aquela criança que antes precisava de ajuda para pequenas tarefas começa a crescer, quer desenvolver autonomia em algumas áreas e passa a falar sobre faculdade, trabalho, independência, amizades, relacionamentos e vida adulta.

Mas essa transição nem sempre acontece de forma linear.

Muitos jovens autistas ainda precisam de apoio em diferentes aspectos da rotina, da comunicação, da organização emocional ou das relações sociais. E isso não diminui sua capacidade, seu potencial ou o direito de construir o próprio caminho.

A autonomia, dentro da neurodivergência, acontece no tempo e nas possibilidades de cada indivíduo. Aqui em nossa família, estamos neste processo com o nosso filho, ainda adolescente, que tem o diagnóstico de TEA nível 1, TDAH e TOD, mas que já pensa no seu futuro e deseja iniciar no mercado de trabalho aos 14 anos.

Junto com esse crescimento dele chegam também perguntas difíceis de ignorar, e que são a nossa grande preocupação e das famílias em geral:

Será que ele será compreendido?
Vai conseguir trabalhar?
O mercado está preparado?
Vai encontrar pessoas que respeitem suas diferenças?
Precisará esconder quem é para conseguir pertencer?

O medo de não caber no mundo não nasce da falta de capacidade desses jovens. Muitas vezes, nasce justamente do contrário: perceber que a sociedade ainda não aprendeu a acolher diferentes formas de existir.

Medo da rejeição

Segundo dados divulgados pelo IBGE, o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, número equivalente a 1,2% da população brasileira. Isso significa que, dentro desse universo, existe uma geração inteira de crianças e adolescentes autistas crescendo e começando a ocupar espaços que ainda pouco falam sobre neurodivergência, como universidades e ambientes profissionais.

“Muitos jovens não têm medo do trabalho. Têm medo da rejeição.”

Existe uma cobrança silenciosa para que o jovem saiba se comunicar da forma “esperada”, tenha rapidez social, consiga lidar com ambientes intensos, entrevistas imprevisíveis, excesso de estímulos e relações pouco empáticas.

E nem sempre dificuldade social significa falta de competência.

Os jovens neurodivergentes que chegam ao mercado de trabalho possuem criatividade, foco, inteligência técnica, percepção diferenciada, capacidade analítica e formas únicas de resolver problemas. Ainda assim, acabam sendo vistos apenas pelas dificuldades de interação, ansiedade ou comunicação.

“O problema nem sempre está no jovem. Muitas vezes está no ambiente.”

Processos seletivos excessivamente padronizados, comunicação ambígua, lideranças despreparadas e culturas organizacionais pouco acolhedoras acabam excluindo talentos antes mesmo que eles tenham oportunidade de mostrar suas capacidades.

E talvez um dos pontos mais dolorosos seja perceber que muitos desses jovens passam anos tentando se adaptar para serem aceitos, gerando desgaste emocional, ansiedade e uma sensação constante de inadequação.

Inclusão não começa na contratação. Começa na forma como enxergamos as diferenças.

E está mais do que na hora de o mundo aprender que existem muitas formas legítimas de existir, trabalhar, sentir, comunicar e pertencer.

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