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Adoecimento de professores

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Há uma afirmação que precisa ser feita com cuidado, mas também com coragem: a maneira como muitas instituições têm conduzido a inclusão está contribuindo para o adoecimento de professores. Não porque estudantes com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou diferentes necessidades de apoio sejam responsáveis pela sobrecarga docente. Eles não são.

O adoecimento começa quando a escola assume publicamente o compromisso com a inclusão, mas transfere silenciosamente para o professor toda a responsabilidade por fazê-la acontecer. Quando um estudante que necessita de apoios específicos chega à sala de aula, não é apenas uma nova matrícula que se apresenta. Com ele, chegam formas singulares de comunicar-se, aprender, relacionar-se, regular-se e participar. O que muitas vezes não chega é uma resposta institucional capaz de transformar essas necessidades em planejamento, responsabilidades definidas e apoios concretos.

Entre as informações de um laudo técnico e a complexidade do cotidiano escolar existe uma distância que não pode ser percorrida apenas pelo professor. Ainda assim, é dele que se espera a reorganização das aulas, a compreensão dos comportamentos, a produção de materiais, o diálogo com a família, a articulação com profissionais externos e a condução do restante da turma.

Quando a instituição não constrói essa ponte, o professor é levado a sustentá-la sozinho. Tudo isso sem tempo adicional, sem redução de outras demandas, sem formação continuada suficiente e, muitas vezes, sem apoio técnico. É indispensável compreender que não é a diversidade presente na sala de aula que produz, por si só, a sobrecarga.

O que sobrecarrega é a ausência de condições institucionais para trabalhar com essa diversidade. Há professores comprando materiais com recursos próprios, estudando diagnósticos durante a noite e criando atividades nos fins de semana. Há profissionais que se sentem culpados por não conseguirem oferecer a atenção que determinado estudante necessita enquanto conduzem uma turma inteira. Há educadores tentando prevenir crises sem conhecer os sinais que as antecedem ou as barreiras que contribuem para sua ocorrência.

Pergunta não é dirigida à instituição

Quando o resultado não corresponde ao esperado, pergunta-se ao professor: “O que você fez para incluir esse estudante?” Raramente a mesma pergunta é dirigida à instituição: “Quais condições foram oferecidas para que esse professor pudesse incluí-lo?” Não é possível sustentar uma política de inclusão apoiada no sacrifício permanente de quem ensina.

A boa vontade do professor não pode ser o principal recurso de acessibilidade da escola. Sensibilidade não substitui formação. Afeto não substitui planejamento. Compromisso individual não substitui responsabilidade institucional.

Palestras esporádicas não preparam ninguém para a realidade da sala de aula, especialmente em um cenário no qual o esgotamento docente já alcança índices preocupantes. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo com 397 professores da educação básica identificou prevalência da síndrome de burnout em aproximadamente um terço dos participantes.

A inclusão exige um repertório prático do qual o docente raramente dispõe: identificar barreiras, diversificar as formas de participação, tornar o currículo acessível, antecipar situações de sobrecarga, compreender comportamentos como possíveis formas de comunicação e avaliar a aprendizagem para além das provas tradicionais.

Sobretudo, o professor precisa ter com quem pensar. Orientações como “tenha paciência”, “acolha mais” ou “adapte a atividade” transferem uma responsabilidade enorme sem oferecer critérios ou condições concretas de atuação. Adaptar o quê? Com qual objetivo pedagógico? A partir de quais necessidades? Com quais recursos? Quem acompanha os resultados? Que apoio será oferecido quando a estratégia não funcionar? Sem essas respostas, a inclusão corre o risco de se transformar em improvisação.

Na tentativa de preencher esse vazio, costuma-se recorrer à figura do apoio escolar, mas a simples presença de um mediador não garante, por si só, a inclusão. Quando esse profissional atua sem alinhamento com o docente e assume sozinho a responsabilidade pelo estudante, cria-se uma “sala dentro da sala”, mantendo a criança distante do planejamento, das relações e das experiências coletivas de aprendizagem. Uma escola não se torna inclusiva por contratar alguém para permanecer ao lado de um estudante. Torna-se inclusiva quando toda a organização assume responsabilidade por sua participação.

Essa responsabilidade também precisa ser compartilhada com a família. É ela quem conhece a trajetória do estudante, suas formas de comunicação, os sinais de sobrecarga, os apoios que já funcionaram e as mudanças observadas fora da escola. Cabe à família oferecer informações relevantes, participar das decisões, manter o diálogo com a equipe e colaborar com os encaminhamentos construídos. Corresponsabilidade, no entanto, não significa atribuir tarefas iguais a todos. A família não pode transferir integralmente à escola aquilo que também depende de sua participação, assim como a escola não pode devolver à família desafios pedagógicos e institucionais que lhe compete enfrentar.

A inclusão avança quando família, escola e profissionais deixam de procurar culpados e passam a construir compromissos claros, possíveis e acompanhados.

Entretanto, essa rede de responsabilidades não se encerra na relação entre escola e família. Cabe também ao poder público transformar direitos formalmente reconhecidos em condições concretas de funcionamento. Não se pode exigir que professores e instituições resolvam, isoladamente, problemas relacionados à falta de financiamento, à insuficiência de profissionais especializados, à fragilidade do Atendimento Educacional Especializado e à ausência de articulação entre educação, saúde e assistência social.

Quando o poder público amplia o acesso à escola regular sem estruturar a rede necessária para sustentar permanência, participação e aprendizagem, produz uma inclusão administrada pela urgência. A matrícula é garantida, mas os recursos, os profissionais e as estratégias nem sempre chegam.

Não basta universalizar a matrícula. É necessário financiar as condições que tornam a inclusão possível. Isso exige políticas permanentes: formação continuada vinculada à realidade das escolas, equipes técnicas em quantidade suficiente, profissionais de apoio qualificados, tempo para planejamento coletivo, materiais acessíveis, acompanhamento dos resultados e participação efetiva das famílias e dos estudantes.

Também exige enfrentar, sem respostas simplistas, o debate sobre o papel das escolas e instituições especializadas. A escola especializada não pode ser utilizada como destino automático para estudantes que desafiam a organização da escola regular. Encaminhar uma criança apenas porque a instituição não conseguiu rever suas práticas significa transformar a deficiência em justificativa para o afastamento.

Necessidades intensas

Por outro lado, defender a inclusão não pode significar ignorar estudantes com necessidades intensas e complexas de apoio, nem desqualificar famílias que procuram instituições especializadas porque não encontraram, na rede regular, condições adequadas de comunicação, segurança, participação e aprendizagem. Defender a inclusão também significa escutar quem não está sendo efetivamente incluído.

A discussão não deveria se resumir a uma disputa entre escola regular e escola especializada. A pergunta mais responsável é: quais condições educacionais garantem, para este estudante, aprendizagem, participação, convivência, comunicação, dignidade e desenvolvimento? O conhecimento técnico construído pelas instituições especializadas pode integrar redes de apoio, centros de referência, formação de profissionais e ações articuladas com as escolas regulares.

Ao mesmo tempo, a escola regular não pode ser considerada inclusiva apenas porque mantém o estudante matriculado. Quando não há participação, aprendizagem, comunicação ou acesso ao currículo, a presença física pode esconder uma forma silenciosa de exclusão. O centro desse debate não deve ser a defesa de uma instituição ou de outra. Deve ser a garantia de direitos.

Tanto a permanência compulsória em uma escola que não oferece condições quanto o encaminhamento automático para uma instituição especializada podem produzir exclusão. O que precisa orientar qualquer decisão é a qualidade dos apoios, da participação, da aprendizagem e das relações construídas.

Proteger o professor também faz parte desse compromisso. A inclusão só se torna uma política real quando deixa de depender da resistência individual. Se a maneira como vem sendo implementada está adoecendo professores, o problema não está no direito dos estudantes, mas na transferência de responsabilidades sem as condições necessárias para sustentá-las. O professor não precisa aprender a suportar tudo. Precisa encontrar uma escola e uma rede capazes de transformar o compromisso com a inclusão em estrutura, apoio e responsabilidade compartilhada.

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