O hiperfoco é uma característica comum no transtorno do espectro autista (TEA) e se manifesta por meio de interesses restritos e dedicação prolongada a determinados temas. Trata-se de um estado de atenção profunda, no qual a criança concentra grande parte de sua energia mental em um assunto específico, podendo manter esse interesse por meses ou até anos. Compreender como esse funcionamento influencia a aprendizagem e a rotina é essencial para que família e escola atuem de forma equilibrada e colaborativa.
No contexto educacional, o hiperfoco pode ser tanto um facilitador quanto um desafio. Quando direcionado a conteúdos acadêmicos, ele favorece o aprofundamento do conhecimento, a memorização e o desenvolvimento de habilidades específicas. Crianças com hiperfoco podem demonstrar domínio avançado sobre determinados temas, surpreendendo professores e colegas.
Por outro lado, a dificuldade em alternar a atenção entre diferentes atividades pode interferir na dinâmica escolar. A resistência a mudar de tarefa, a frustração diante de interrupções e a tendência a priorizar apenas o tema de interesse podem impactar o rendimento em outras disciplinas e a organização da rotina.
Um estudo divulgado pela Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) analisou estratégias pedagógicas voltadas a estudantes do espectro autista com interesses intensos em temas específicos. A pesquisa destacou o uso de avaliações adaptadas que incorporaram elementos de grande interesse dos alunos, como personagens, jogos eletrônicos ou de mesa, para estimular o engajamento nas atividades escolares.
Segundo o levantamento, quando o conteúdo dialoga com o foco de interesse da criança, há maior motivação para participar das tarefas e melhor aproveitamento acadêmico. A adaptação não elimina o currículo regular, mas utiliza o hiperfoco como ponto de partida para ampliar a aprendizagem.
Interesses profundos
Na rotina familiar, o hiperfoco também se manifesta de forma intensa. Anair Aparecida da Rocha, mãe do estudante Pedro Henrique, de 13 anos, que atualmente estuda em uma escola municipal de Curitiba, relata que, desde cedo, o filho demonstra interesses profundos e duradouros. “Aos sete anos, meu filho já tinha interesses muito específicos. Desde que ganhou um videogame, há três anos, se dedica ao mesmo jogo de luta e desenvolveu muita habilidade. É algo admirável, mas exige organização para equilibrar com outras atividades.”
Para garantir esse equilíbrio, Anair explica que estabelece limites claros. “Aqui em casa, nós delimitamos o tempo de uso do videogame. Ele sabe que existe horário para jogar e horário para cumprir outras responsabilidades, como as tarefas escolares e momentos em família”, afirma.
Além do controle do tempo de tela, a mãe investe em atividades externas como forma de ampliar as experiências do filho. “Sempre procuramos inscrevê-lo e incentivá-lo a participar de atividades fora de casa. Ele pratica futebol, faz natação e também triathlon. Essas atividades ajudam no desenvolvimento físico, social e contribuem para que ele aprenda a dividir a atenção entre diferentes compromissos.”
Constância e diálogo
Ela explica que o manejo exige constância e diálogo. Com estratégia, firmeza e acompanhamento terapêutico, é possível ajudar no controle da intensidade das reações. No entanto, o aprendizado acontece no dia a dia, com o apoio da família e da escola.
O suporte educacional e terapêutico é apontado como fundamental para ampliar habilidades sociais, incentivar a partilha de interesses e promover maior autonomia. Em vez de tentar eliminar o hiperfoco, o objetivo é torná-lo funcional dentro da rotina da criança, respeitando suas características e potencializando suas habilidades.
O hiperfoco não é apenas “gostar muito” de algo. Ele faz parte do funcionamento neurológico no TEA e precisa ser compreendido dentro desse contexto. Quando há alinhamento entre família, escola e profissionais, a atenção intensa pode ser canalizada para o desenvolvimento acadêmico, emocional e social.
Com informação, mediação adequada e práticas inclusivas, é possível transformar o hiperfoco em potência, assim contribuindo para a aprendizagem, fortalecendo talentos e ampliando a qualidade de vida da criança.
FONTE: https://apaecuritiba.org.br/o-hiperfoco-no-tea/